‘Rêverie’, solo de Morena Nascimento, chega ao Brasil tratando de ‘devaneios’

Coreografia é manifesto surrealista da dança; apresentações ocorrem neste sábado e domingo, no Sesc Belenzinho

Helena Katz, Especial para O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2014 | 02h00

O nome da nova produção que Morena Nascimento apresenta neste sábado, 2, às 21h e domingo, 3, às 18h no Sesc Belenzinho está em francês, mas a palavra existe também em inglês e alemão, mudando apenas as pronúncias. Rêverie (devaneio) é um solo e tem um subtítulo gigante: sonho de desastre cósmico com final feliz imaginado por uma atriz e uma bailarina ou ‘an uncontrolled response’. Estreou em 16 de novembro passado na Tanzhaus de Dusseldorf, Alemanha, como parte do Festival Pina 40, que comemorou as quatro décadas da companhia de Pina Bausch, na qual Morena continua atuando como bailarina convidada depois de haver dançado por três anos (2007-2009). 

Rêverie surge depois das duas versões de Estudo para Claraboia (solo, 2010, e grupo, 2013), dirigidos em parceria com Andreia Yonashiro, e mescla dança, texto falado, música cantada e projeções de slides. “E a voz resolveu falhar justamente agora, na primeira vez em que falo muito em cena, e também canto”, disse ela, preocupada e pedindo para escrever as respostas à entrevista. 

O encontro com as fotomontagens/colagens de Grete Stern (1904-1999), apresentadas pela primeira vez no Brasil em 2009, no Museu Lasar Segall, em São Paulo, foi a ignição para este trabalho. “Foi uma coincidência descobrir que ela é de Wuppertal, a cidade onde morei quando trabalhei com a companhia.”

Morena diz que o devaneio está em tudo o que faz. “Sempre vou pro devaneio, e Rêverie é só uma variação desse tipo de tempo. Dessa vez, a inspiração inicial, que são as fotomontagens da Grete Stern, vem de um universo próximo do surrealismo, e tenho gostado de me aproximar dele. Rêverie é um manifesto surrealista da dança.”

Pela primeira vez, ela trabalha com uma dramaturga em uma produção sua, mas já havia colaborado com Carolina Bianchi em outras companhias. Agora, elas assinam a criação, a direção e a trilha sonora. “Sempre admirei a Carol como atriz e temos um jeito parecido de trabalhar, mais intuitivo, mais instintivo. Ela tem uma certa empáfia que me atrai, como se não tivesse dúvidas. É claro que tem, mas consegue um jeito de ser certeira que é quase arrogante. Como sempre tenho mil dúvidas que quase me afogam, Carol consegue me fazer esquecer um pouco delas, me injeta a coragem para dizer as coisas que quero. Basicamente, me leva para o mau caminho.”

Segundo Morena, a dramaturgia foi sendo construída através da sua dança, em uma relação simbiótica com os textos, o que a faz recusar a classificação de dança-teatro. “Eu nem sei o que seria isso. Para mim, é dança. Me senti uma criança, brincando de inventar uma nova realidade. Achei tão delicioso que fiquei pensando em porque não tinha trabalhado com um dramaturgo antes.”

Os textos em espanhol, francês, inglês e alemão se misturam com músicas de Ray Conniff, Joan Baez, Os Tincoãs, Timber Timbre, Dominique A e Rodrigo Amarante e com silêncios. Elas dizem que não entender tudo faz parte do espetáculo e faz o público buscar as suas próprias interpretações. 

Rêverie segue para a Galeria Olido, de 14 a 24 de agosto, ocupa o Teatro Cacilda Becker, de 29 a 31 de agosto, e termina o ano na França, na Comédie de Clermont, de 16 a 19 de dezembro, quando Morena dança com o Tanztheater Wuppertal. 

MORENA NASCIMENTO

Sesc Belenzinho. Teatro. Rua Padre Adelino, 1.000, telefone 2076-9700. Sáb., 21 h; dom., 18 h. Ingressos: de R$ 4 a R$ 20. 

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