DANIEL MARENCO/divulgação
DANIEL MARENCO/divulgação

Renato Aragão estreia no teatro com musical

Em ‘Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical’, artistas de circo, teatro e TV dividem o palco; leia entrevista com o humorista

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

28 Setembro 2014 | 03h00

RIO - Renato Aragão não é supersticioso, mas, quando entrar em cena neste fim de semana para a pré-estreia de Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical, na Cidade das Artes, no Rio, três figuras notáveis não vão sair do seu pensamento: Oscarito, Charles Chaplin e Carmen Miranda. “Eles me inspiraram artisticamente. Foi por causa desse trio que abandonei a carreira de advogado”, conta o humorista que, depois de se consagrar como o palhaço número um do cinema e da TV brasileiros, agora pisa pela primeira vez no palco do teatro.

Em cena, na pele de seu já clássico personagem Didi, ele interpreta, ensaia alguns passos de dança e até canta. “Foi o mais difícil”, confessa Aragão, que completa 80 anos em janeiro. “No início, relutei, ameacei desistir, até pedi que colocassem playback, mas, diante de uma banda que se apresenta ao vivo, não tive escolha e cedi.”

Com estreia prevista para sexta-feira, 26, Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical faria um aquecimento sábado, 27, e neste domingo, 28, para convidados e público pagante. Com direção e produção dos magos do gênero, Claudio Botelho e Charles Möeller, o espetáculo é diretamente inspirado no filme homônimo dirigido por J. B. Tanko em 1981. E, suprema felicidade, traz as famosas canções criadas por Chico Buarque, Sergio Bardotti e Luis Enríquez Bacalov.

“Ao adaptar para o palco, fizemos algumas modificações”, conta Möeller. “Agora, Didi encontra o conto dos Irmãos Grimm (‘Os Músicos de Bremen’) dentro de uma garrafa e resolve encená-lo como um musical, que se transforma em um fenômeno popular.”

Um dos maiores sucessos dos Trapalhões, o filme atraiu mais de 5 milhões de espectadores e, para manter um clima aproximado do original (afinal, Mussum e Zacarias já morreram), Aragão contracena com velhos companheiros, como Dedé Santana, Roberto Guilherme (Sargento Pincel) e Tadeu Mello.

Uma das cenas que mais emocionam Renato Aragão em Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical é justamente quando contracena com sua filha, Livian. “Trabalhamos juntos desde quando ela estava com seis meses de vida, em uma cena de O Trapalhão e a Luz Azul, em 1999”, lembra-se o humorista, que se derrete com a voz potente e afinada da garota. “Eu me controlo para não olhar e inibi-la. Ela me surpreende quando canta – afinal, é tímida como o pai.”

Em sua concepção do espetáculo, o diretor Charles Möeller pretendeu homenagear a profissão do artista ao valorizar o caráter artesanal do ofício e, principalmente, ao sublinhar o aspecto singelo e mambembe do circo. Para isso, trabalhou, pela primeira vez, com acrobatas, malabaristas, contorcionistas e trapezistas. “Eles estão acostumados a se apresentar em picadeiros, em arenas, e agora se adaptaram ao palco italiano e à contracenar com os outros atores e bailarinos, que, na via inversa, precisaram desenvolver as habilidades circenses”, conta.

O resultado é deslumbrante. No palco, Didi e Dedé são dois funcionários humildes que se tornam a grande atração de um circo graças à incrível capacidade de fazer o público rir. O sucesso desperta a ira do Barão (Roberto Guilherme), dono do circo, e do mágico Assis Satã (Nicola Lama), que passam a persegui-los. Na confusão, surgem também a vilã Tigrana (Adriana Garambone) e a mocinha Karina (Gisele Prattes).

“A disciplina de palco foi o elemento mais difícil para mim: saber por onde entrar e sair”, conta Aragão, que não se constrange em cantar – afinal, não é ele quem está em cena. “Fiquei com medo que o público quisesse fugir do País quando eu abrir a boca”, diverte-se. “Mas, como quem canta é o Didi, estou despreocupado. Ele é meu alter ego, sou tímido, controlado. Com Didi, extravaso. Ele é meu saltimbanco.”

“Renato é pioneiro, na TV, a se dirigir à plateia”, observa o diretor. “Para o espetáculo, ele trouxe seu próprio dicionário, ou seja, aquelas expressões clássicas como ‘ô da poltrona’ e ‘psiti’. Didi é um clown muito interiorizado. Vê-lo atuando permite descobrir as características de Chaplin, Oscarito e Carmen Miranda, que ele tanto admira.”

ENTREVISTA - RENATO ARAGÃO

‘O corpo é meu principal instrumento de humor’

Como estão seus planos para a televisão?

Continua a mesma coisa, só que diferente (risos). Na verdade, vou me dedicar mais a telefilmes e minisséries. Aliás, acabei de filmar um telefilme, que a Globo deve programar para a semana do dia das crianças ou incluir no pacote da programação do final de ano.

Como se chama?

O título é Didi e o Segredo dos Anjos. Ficou um belo filme, mas deu muito trabalho. Filmamos muitas externas, com cenas de perseguição, e ainda viajamos para Teresópolis, onde filmamos perto do famoso Dedo de Deus, além de rodar também na floresta que existe perto do Projac (centro de produção da Globo, localizado no Rio). E o elenco é bem eclético, vai de Lima Duarte, super experiente, a Anitta, que gravou uma canção que encerra a história.

Você faz humor há mais de 50 anos. Como é atuar para a criança da atualidade? Há alguma grande diferença?

Sim, as crianças hoje são muito mais rápidas no raciocínio, mais informadas por conta do avanço da tecnologia. Vejo isso nos meus netos. Mas, meu estilo de humor continua o mesmo: é preciso ter muito corre-corre, perseguições. Descobri que o corpo é meu principal instrumento para fazer rir. Assim, preciso estar sempre em movimento. Aí, até criança pequena fica atenta, mesmo não entendendo nada. / U.B.

Canções têm função dramática e provocam mudanças na trama

Momento mágico: Didi brinca com a sonoridade das palavras em ‘Meu Caro Barão’, graças à sua dicção particular

Ao adaptar o filme para o teatro, Charles Möeller e Claudio Botelho preocuparam-se principalmente com as canções, que trazem a assinatura de Chico Buarque. “Usamos no espetáculo todas as canções que o Chico criou para o filme”, conta Botelho. “Como no filme a música entra quase como videoclipe, na peça criamos uma função dramatúrgica para todas elas. Assim, cada vez que uma canção é interpretada, acontece uma mudança na história.”
Dessa forma, o espetáculo é um desfile de clássicos como Piruetas, História de uma Gata, Minha Canção, Todos Juntos, Rebichada, entre outros.

O filme dos Trapalhões, no entanto, já era baseado em outra peça, Os Saltimbancos, montada inicialmente em 1977, a partir do texto original de Luiz Enriquez e Sérgio Bardotti. Ao adaptar, Chico Buarque reforçou o cunho político ao transformar os animais em uma metáfora dos operários que escapam do sistema assalariado para criar sua própria comunidade, autônoma. Unidos, os bichos descobrem que são mais fortes.

No cinema, os operários ganharam a função de contrarregras de um circo e os animais surgem quando esses funcionários se transformam em saltimbancos, ou seja, quando utilizam fantasias de Gata, Cachorro, Galinha e Jumento.
Da peça, Chico manteve apenas as canções História de Uma Gata, Minha Canção, Todos Juntos e Bicharia, rebatizada de Rebichada. Piruetas foi especialmente composta para os Trapalhões – a letra trata da miséria ao mesmo tempo em que brinca com a loucura de se administrar um circo. 

Hollywood traduz o mundo sonhado pelos saltimbancos. A canção substitui A Cidade Ideal. E, um dos momentos mais tocantes do musical é quando Didi interpreta Meu Caro Barão, que substitui A Pousada do Bom Barão – a letra busca delinear o perfil maléfico do dono do circo e Chico brinca com a sonoridade das palavras: Didi empresta sua particular dicção ao ler em voz alta uma carta escrita em uma máquina de escrever que tem o acento agudo quebrado. / U.B.

O repórter viajou a convite da produção do musical.

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