'Rei Lear' é um rei no castelo de insensatos corações

Peça com Juca de Oliveira não consegue unir o talento do ator com a força do texto de Shakespeare

Jefferson Del Rios, Especial para O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2014 | 02h00

Rei Lear é, sobretudo, o encontro de Juca de Oliveira com um sonho artístico e a adaptação bastante livre do original de Shakespeare pelo poeta e tradutor Geraldo Carneiro. É legítimo que um intérprete da estatura de Juca queira se aventurar em um espetáculo difícil, que o expõe em cena por uma hora contínua na recriação de mais de cinco personagens desta tragédia. O próprio Shakespeare criou situações para o ator que faz Lear, sair às vezes de cena, e recobrar o fôlego.

O ensaísta literário Harold Bloom, que dedicou ao dramaturgo o ensaio Shakespeare – A Invenção do Humano, fundamental aos que se interessam pelo tema, diz de forma direta que “Rei Lear, assim como Hamlet, em última análise, confunde a crítica”. Compara a obra à Ilíada de Homero, ao Alcorão (Bloom omite a Bíblia), à Divina Comédia, de Dante, e o Paraíso Perdido de Milton. 

É razoável, portanto, passar recibo no que Bloom assume abertamente em um trabalho extenso sobre o conjunto lítero-cênico shakespeariano. No caso do espetáculo atual dirigido por Elias Andreato, não há exatamente confusão, mas perplexidade. Lamentar seria injusto com o talento de Juca de Oliveira. 

A questão não tem a ver diretamente com Shakespeare e, sim, com circunstâncias criadas pelo adaptador, o diretor e o próprio Juca que, ciente do desafio, quase chegou a desistir do projeto. Fiel, porém, à tentação do salto sem rede, que o define como verdadeiro criador, Juca assumiu a travessia de um Shakespeare condensado em linguagem coloquial por um poeta sutil, mas que neste contexto diminui o estilo, a escrita magistral do inglês. 

Lear é o rei que decide repartir seus domínios entre as três filhas e retirar-se do círculo de violência do poder para serenamente viver os derradeiros dias em paz. Não é difícil entendê-lo. O teatro de Shakespeare é um mar de ambições, crueldade e sangue. Mas ao fazê-lo, Lear é tomado da necessidade ególatra de receber das filhas a reiteração de amor e fidelidade no padrão da vassalagem. Duas cedem por conveniência, enquanto a terceira responde apenas com uma límpida declaração de amor. Sem altissonâncias. O monarca perde-se pela vaidade e renega alucinado a única herdeira sincera. Descobrirá, brevemente, o preço da falsidade das outras ao ser transformado em um ancião abandonado entre trovoadas e o frio. Até que o seu mundo entre nos eixos, com o fim das perfídias e vinganças, ele viverá a dura descoberta de outra realidade. 

Como sempre em Shakespeare, há uma galeria de personagens que Geraldo Carneiro minimizou no esforço autobiográfico de Lear. Juca de Oliveira o leva bravamente à cena com iluminações e instantes lineares. 

O diretor, ao não armar situações trágicas nítidas e o tom verbal cotidiano da versão, retira a força cósmica de Lear. A imitação irônica dos gestos e falas melífluas das filhas é recurso de pouca expressividade. Juca de Oliveira geralmente é mais carismático e incisivo no palco. Este Lear, ao bradar contra o veneno da ambição, parece um recital sobre a ingratidão filial e as queixas do homem envelhecido e atirado ao exílio. 

O rei, no entanto, é também uma personalidade autoritária, o dono implacável de verdades discutíveis. Há algo nele, por exemplo, do revolucionário russo Leon Trotski, um dos modeladores da história do século 20, rapidamente caído em desgraça, como aparece no notável romance O Homem Que Amava os Cachorros, do cubano Leonardo Padura. Todo Trotski corre o risco de ter ao lado um Stalin. 

Cenicamente, Lear é contado diante de uma cenografia de rotina, um fundo negro, e com trilha puxada ao melodramático, que tenta insinuar tensão. O espetáculo perde a oportunidade de ressaltar a proclamação fundamental de Lear: “Dotai-me de uma fúria nobre”. 

Ator completo, Juca de Oliveira ainda poderá, ao longo da temporada, achar este tom. O clima que outro poeta, T.S. Eliot, séculos mais tarde, descreveu como o espaço entre a meia-noite e a aurora, quando o passado é apenas fraude.

REI LEAR

Teatro Eva Herz. Avenida Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, 3170-4059. 6ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 60. Até 12/10. 

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