Quarteto infernal de Fassbinder em versão inspirada

Escrita aos 19 anos pelo cineasta, ‘Gotas d’Água Sobre Pedras Escaldantes’ tem diretor e atores sintonizados

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

18 de julho de 2014 | 02h00

O cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) tinha apenas 19 anos quando escreveu a peça Gotas d’Água Sobre Pedras Escaldantes (1965- 66), que não chegou a ser montada ou filmada por ele (Klaus Weisse dirigiu a primeira montagem, em 1985, num festival em Munique). Quem assinou a transposição para o cinema há 14 anos foi o diretor francês François Ozon. É teatro filmado. Ozon, aos 33 anos, ainda era um inexperiente realizador que mais tarde seguiria o caminho de Fassbinder na reabilitação de um gênero consagrado por outro alemão, Douglas Sirk. 

Mestre do melodrama, ele assinou clássicos como Imitação da Vida e Palavras ao Vento. Fassbinder adorava Sirk. Com justa razão. Identificado pelos americanos como um autor de dramalhões, Sirk foi mais bem entendido pelos europeus, que viram em seus filmes uma crítica violenta à hipocrisia e ao moralismo da sociedade americana.

Gotas d’Água não é uma simples tentativa de replicar a ironia e a carga simbólica dos melodramas de Sirk. Francamente autobiográfica, a peça seminal de Fassbinder evoca dramáticas experiências da juventude do diretor de Berlin Alexanderplatz, morto de uma overdose aos 36 anos, ele mesmo, como o personagem Leopold da peça, um cínico manipulador que levou um dos amantes ao suicídio. É interessante notar que existe uma simetria entre o jovem e ingênuo Franz (Felipe Aidar) e seu algoz, Leopold (Luciano Chirolli), perverso homem de negócios cinquentão cuja maior diversão é destruir relacionamentos e obrigar seus amantes a trocar de sexo, como faz com Vera (Gilda Nomacce).

Essa última história seria revisitada pelo próprio Fassbinder num filme saturnino, Um Ano de 13 Luas (In Einem Jahr mit 13 Monden, 1978), sobre um açougueiro que faz um operação transexual no Marrocos apenas para ser aceito por um homem que o rejeita. “Pena que você não seja uma mulher”, diz ele. Mesmo com seu novo corpo, persiste o insucesso do ex-açougueiro, que termina seus dias na sarjeta. Os grotescos personagens de Fassbinder estão condenados ao fiasco, como os de Beckett. Tente de novo. Falhe novamente. Falhe melhor, como dizia o irlandês. É o que fazem os personagens de Gotas d’Água Sobre Pedras Escaldantes. Vera, a ex-companheira de Leopold, volta apenas para ser duplamente humilhada. Anna (Nana Yazbek), a jovem noiva de Franz, é incorporada ao quarteto tão somente para ser consumida pelo voraz apetite do predador Leopold.

O jovem e competente diretor Rafael Gomes tira proveito das limitações físicas da sala subterrânea do Instituto Cultural Capobianco na encenação do claustrofóbico drama de Fassbinder – uma peça de formação, na qual ele se projeta na figura de Franz, que, não por acaso, tem a mesma idade do autor na época da elaboração do texto. O mais trágico é que o jovem Fassbinder (reputado prostituto com clientela masculina aos 19) projeta no maduro Leopold as próprias ações futuras – a manipulação de suas mulheres (Ingrid Caven e companhia) e seus amantes (Günther Kaufmann, entre outros).

Ao contrário de Ozon, Rafael Gomes não pontua esse jogo de sedução recorrendo a insólitos números de dança entre os parceiros. Ele faz uso do leitmotiv, como fez Fassbinder em seus filmes, escolhendo, por exemplo, uma canção de Art Garfunkel (Crying in the Rain) para traduzir o desamparo de Franz quando as palavras são inúteis. Felipe Aidar, jovem como seu personagem, passa por todos os registros com senso de equilíbrio – do amante devotado, que sacrificou tudo, a frustrado perdedor do jogo de Leopold. 

Gilda Nomacce usa sua voz grave para acentuar a ambiguidade da possessiva Vera, que volta ao combate no apartamento prisão de Leopold como uma figura andrógina, realçada pelos figurinos de João Pimenta. Nana Yazbek resolve a exponencial assimetria do quarteto ao impor sua presença jovial. Finalmente, o veterano Luciano Chirolli, como o abusivo Leopold, resgata o resto de humanidade que sobrevive no executivo, compondo um personagem que oscila entre o magnetismo sexual e uma patética irascibilidade. O diretor Gomes deve ter considerado o fato de Leopold ser um sobrevivente judeu dos campos de concentração e decidiu suprimir sua origem étnica, presente na versão original de Fassbinder. Em todo caso, foi uma decisão acertada. Gotas d’Água Sobre Pedras Escaldantes já é suficientemente carregada para incorporar uma parábola política. A balada da dependência sexual já basta.

GOTAS D’ÁGUA SOBRE PEDRAS ESCALDANTES

Instituto Capobianco. R. Álvaro de Carvalho, 97, 3255-8065. 6ª, 21h30; sáb.,21 h; dom., 20 h. R$ 30 e R$ 15.

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