Projeto de dança promove diálogo com espaços urbanos

A criadora e pesquisadora Vera Sala investe, mais uma vez, na relação corpo-ambiente em 'Estudo para Lugar Nenhum'

Helena Katz, Especial para O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2014 | 16h00

Sombras pálidas que circulam por ali até não caber mais na sala nos contam que aquilo que passa é aquilo que dura, como se aquele lugar soubesse de cor todos os que andaram por ali. É essa poesia visual, assinada por Marcus Bastos, que nos recebe no Estudo para Lugar Nenhum, que Vera Sala apresenta hoje em um dos novos endereços para as artes da cidade, o prédio que o incinerador municipal ocupou em São Paulo, na Rua Sumidouro, 560, em Pinheiros. 

Esta nova produção faz parte do Projeto Dessincronias. Vera Sala começou seu percurso artístico em 1987, mas foi em 2002 que fez da relação corpo-ambiente o seu assunto principal. Desde então, pratica aquilo que Mário Quintana disse tão bem: “Quando abro cada manhã a janela do meu quarto/É como se abrisse o mesmo livro/Numa página nova...”. Porque é justamente isso que vem fazendo desde Impermanências (2006), e continuou em Pequenas Mortes (2007), Procedimento Dois – Pequenas Mortes (2008), Pequenos Fragmentos de Mortes Invisíveis (2009/2010) e Dobras (2011).

Foi chegando a um movimento-coisa, uma matéria-prima que rumina o interesse naquilo que se perde a cada repetição. O corpo, engolfado pelo movimento, não consegue escapar da sua manifestação como uma onda que vem de uma zona escura e de muita secura e parece estar perguntando: tem que ter por quê?

Agora, em Estudo para Lugar Nenhum, o que antecedeu fica se dizendo nos seus restos. Hideki Matsuda, o arquiteto que compõe as espacialidades capazes de dar vida aos propósitos de Vera, recupera pedaços de suas colaborações anteriores, materializando o dominó de ecos do desaparecer/aparecer que os tem guiado. Hideki sabe como nos fazer entender que o sentir é muito lento e não se derrama.

Os três – Vera, Hideki e Marcus – esquadrinham como espaço e tempo podem se justapor sem papel principal, mas como terra nua, na qual fazem caber os ruídos que as paredes absorveram ao longo do tempo. Hideki demonstra que a luz trabalhada na superfície dos vidros dá forma a deslocamentos. Quem está sentado assistindo, se vê assistindo ao espetáculo. A luz transforma tudo em fato, passa por cima dos hábitos do existir. E a plateia sai de onde está sem sair do lugar. Fica replicada lá, na sua própria frente, atuando junto de Vera, que sonambula por aqui e por ali, eletrocutada pelo movimento que sai em jorros. O movimento dura enquanto durar o corpo: um fica se mantendo no outro.

Estudo para Lugar Nenhum convidou Wagner Schwartz, Key Sawao e Sheila Ribeiro a trazer seu olhar e suas perguntas para o processo de criação; Valeska Figueiredo produziu textos e ocorreram palestras de videoartistas e de Christine Greiner. O processo começou em 10 de julho, durou quase 2 meses e nele Vera Sala distendeu o seu fazer no sentido da educação pela pedra de João Cabral porque, nesses anos todos, a sua pesquisa vem entranhando. Chegou agora a um ponto de maturidade e adensamento que começa no aquém e segue para o além.

ESTUDO PARA LUGAR NENHUM

Praça Victor Civita. Rua Sumidouro, 580, Pinheiros, telefone 3031-3689. Das 13 h às 18 h. Entrada grátis. Domingo, 7, último dia. 

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