Erick Miranda/Divulgação
Erick Miranda/Divulgação

Programa Rumos Dança chega ao fim

Maior legado é a organização de banco de dados sobre grupos

Helena Katz - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

09 Dezembro 2014 | 03h00

Foi a última edição de um programa desenhado em 1999 que, durante 15 anos de atuação, ajudou a mudar o cenário da dança no Brasil, tendo profundo impacto sobretudo nas cidades mais distantes do triângulo São Paulo/Rio/Belo Horizonte. Encerrado domingo, o Rumos Dança despediu-se com o nome de Rumos Legado Dança#Sampleado, que nasceu da curadoria de Sônia Sobral, gerente de Artes Cênicas do Itaú Cultural, e de Marcelo Evelyn, artista da dança.

Talvez o mais importante legado do Rumos Dança tenha sido o de ajudar a trazer a dança para a visibilidade. Isso ocorreu de três maneiras distintas: com a organização de uma equipe de pesquisadores para investigar quem existia, onde existia e o que fazia, que produziu o primeiro banco de dados brasileiro sobre dança, publicamente disponibilizado no site da instituição; nas cartografias afetivas que se estabeleceram entre os artistas que conviveram em cada uma das 5 edições do Rumos Dança, das quais saíam fortalecidos por se sentirem parte de um conjunto maior, pautado pela diversidade, que trabalhava pela construção de um campo para a dança no Brasil; e pelos materiais produzidos (livros e DVDs), fundamentais em um país no qual a informação ainda não circula como deveria. 


Com um passivo desta relevância, a forma escolhida para seu encerramento fez soar um alarme. O Rumos Legado escancarou um sintoma nefasto, do qual se tornou um exemplo: o edital, nascido para funcionar apenas como uma forma jurídica de distribuição de dinheiro, extrapolou a sua função e transformou-se em uma lógica do pensar, que agora nos comanda. 

No seu caso, os danos foram graves. Em vez de se perguntar sobre formas possíveis de apresentar um legado, o piloto automático do edital produziu o caminho mais fácil e menos adequado: os curadores organizaram uma espécie de “concurso interno”, que selecionou 17 entre os 136 participantes dos 15 anos de Rumos Dança. O mais importante, nesse caso, nem é perguntar por que estes e não outros, mas perceber a anestesia de qualquer inquietação. Ao praticar esse modelo, a instituição deixa claro que seu legado é o de fortalecer o edital como um hábito cognitivo, o que vai impossibilitando, cada vez mais, arriscar qualquer iniciativa fora do seu modelo. Mais que corpos dóceis, somos agora sujeitos tão profundamente imunizados pelas práticas dos editais (conceito do filósofo Roberto Esposito), a ponto de nem sequer sermos capazes de reconhecer que nossas subjetividades foram ‘editalizadas’.

O pensamento crítico saiu de cena. Essa é a hipótese que nos resta para explicar, por exemplo, a proposição do sampler como “tema” deste Rumos Legado. Importado para a dança sem o questionamento sobre a sua pertinência aos assuntos do corpo, enquadrou a maior parte dos envolvidos que, obedientes, transformaram o sampler no verbo a conduzir suas ações artísticas neste evento. Talvez tenha ocorrido algo para além disso também, pois durante a semana em que ocorreu, o sampler foi se tornando uma dessas palavras-chave que viram senhas de acesso.

É nesse contexto que se deve buscar entender a norma homogeneizadora de que todos teriam 20 minutos de apresentação - questionada publicamente em poucas apresentações. Esse é o modelo dos festivais competitivos, muito distinto do que se praticou durante o Rumos Dança. Causa preocupação ter sido escolhido para o momento em que diz qual é o seu legado, porque o Itaú Cultural, com o seu financiamento, se tornou um dos principais pilares do Festival de Joinville que, como todos os festivais semelhantes, determina uma mesma duração para as coreografias que serão aceitas.

Um programa que se iniciou com o frescor de uma proposição inovadora poderia ter mantido o mesmo perfil no momento de dizer qual é o seu legado.

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