Peça 'Tribos' confirma êxito de cooperativa de Antonio Fagundes

Montada sem parcerias ou incentivos, peça com o ator e seu filho Bruno chega à 100ª sessão com sucesso

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

31 de maio de 2014 | 13h00

Bastou um dia para confirmar que a ideia frutificaria. “Quando a bilheteria abriu em um domingo e logo 300 ingressos foram vendidos, ficamos aliviados”, conta Bruno Fagundes, sobre a empreitada que ele e o pai Antonio resolveram assumir quando decidiram montar a peça Tribos, em cartaz no teatro Tuca. Ao contrário da grande maioria das produções, eles abriram mão de convênios e patrocínios conquistados via renúncia fiscal e montaram uma cooperativa que bancasse todos os custos. Resultado: neste sábado, Tribos comemoraria sua 100.ª apresentação, sempre com casa cheia.

A peça estreou em setembro e o objetivo dos Fagundes era romper a marca dos dois meses, período médio que as peças ficam em cartaz em São Paulo. “É justamente o tempo garantido com o dinheiro investido pelo patrocinador – a partir daí, mesmo com boa bilheteria, os custos não são totalmente pagos pois a política de isenção fiscal acabou inflacionando a produção”, conta Antonio. “Assim, caso não apareça um novo patrocinador, a melhor solução é encerrar a temporada, mesmo com casa cheia.”

Dispostos a inverter essa lógica perversa, pai e filho resolveram apostar em uma cooperativa, ou seja, convidaram outros atores, além de técnicos, diretor, iluminador, figurinista, enfim, todo tipo de profissional interessado em embarcar em uma ideia muito simples: cada um investiria com seu próprio talento e, se a montagem fosse um sucesso, os lucros seriam repartidos. “Apenas eu e meu pai investimos um capital inicial para o projeto começar”, conta Bruno, responsável pela descoberta da peça a ser montada.

Durante uma folga desfrutada em Nova York, ele assistiu ao espetáculo Tribos, da inglesa Nina Raine, e logo ficou apaixonado. “Fiquei enlouquecido com o texto, especialmente por tratar de um tema polêmico de uma forma sensível e sensacional”, relembra o ator que, na peça, assume um papel difícil, o de um surdo.

Na verdade, além da liberdade proporcionada pela cooperativa, Antonio e Bruno buscavam autonomia para montar um texto que não fosse raso – ao contrário, que incentivasse a curiosidade da plateia. E Tribos é realmente desafiador ao contar a história de um rapaz surdo, Billy (Bruno), que nasceu em uma família de ouvintes. E que família! O pai, Christopher (Antonio), é um homem culto, professor, mas nunca admitiu a surdez do filho. Resultado: além de blasfemar e xingar com vontade, ele obrigou a mulher, Beth (Eliete Cigarini), a ensinar o garoto a ler lábios e a responder vocalmente. “Ou seja, ele pretende que o filho seja ‘normal’”, comenta Antonio. 

A família disfuncional é completada pelos irmãos de Billy: Daniel (Guilherme Magon), lunático que ouve vozes estranhas, e Ruth (Maíra Dvorek), moça fracassada, cantora de ópera em pubs. A história toma um rumo inesperado com a chegada de Sylvia (Arieta Corrêa), garota que está ficando surda e, ao se enamorar de Billy, ensina-lhe a linguagem de sinais, o que desmonta a forma de comunicação montada por Christopher em sua casa – por conseguinte, seu comando sofre uma fratura. 

“Entendo como um bom texto aquele que faz o público pensar nele até cinco minutos depois de encerrado o espetáculo, quando a pessoa ruma até o estacionamento”, comenta Antonio Fagundes que, no início da carreira, se acostumou ao esforço coletivo para levantar espetáculos instigantes como Morte Acidental de Um Anarquista e Cyrano de Bergerac. “Normalmente, quando aplaude, o público já está pensando onde jantar. Quero que ele ainda tenha algo que o provoque, uma boa estrutura dramática em que os personagens se desenvolvem e se modificam até o fim. Quero que o público passe por essa transformação, que saia diferente de quando entrou, com algumas perguntas e novas certezas. E Tribos é tão instigante que acreditamos que o público pense na peça durante mais que cinco minutos depois que sai do espetáculo.”

De fato, nesta centena de apresentações, o espetáculo já atraiu mais de 45 mil espectadores e, como não houve investimento em publicidade, a adesão nasceu a partir da mais antiga forma de marketing: o boca a boca. E, por conta do tema delicado, o grupo decidiu também realizar sessões com acessibilidade, ou seja, com pessoas “traduzindo” os diálogos em libras, a linguagem dos sinais – a sessão de ontem era a oitava.

“Alguns vêm fora do dia, com um intérprete que vai contando a peça”, conta Bruno que, durante a preparação para o papel, conheceu, pela internet, rapazes e moças que vivem socialmente com a deficiência. “Em nosso primeiro dia de sessão acessível, que contou com 550 deficientes na plateia, entendi todas as razões do que faço. Acredito que, com esse texto, conseguimos mudar um pouco a vida de algumas pessoas, pois elas analisaram a relação de sua vida com a família.”

Com o sucesso, a cooperativa, que se chama Tribos Produções e conta com 25 cooperados, conseguiu estender a temporada por diversas vezes – a atual, por ora, vai até 31 de julho. Antonio e Bruno já estudam retomar a montagem de Vermelho, em que atuaram em 2012, sob o mesmo estilo de produção, além de planejar viagens para Tribos. “Estamos montando esse xadrez, pois os custos aumentam em 70%”, diz Antonio.

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Como tem sido a experiência?

Em 48 anos de carreira, só participei de três peças patrocinadas – o resto foi produção minha. Antes, tínhamos os apoios: montávamos o espetáculo, estreávamos e buscávamos empresas que nos facilitassem a divulgação. Mas não era patrocínio, e sim parceria. Meu problema com a renúncia fiscal é que se cria um ruído na relação entre palco e plateia, pois já não se preocupa com a reação do público. Como o patrocínio já bancou tudo, a resposta é o prazer pessoal de elenco e produção, independente se aquele espetáculo contribuiu para a cultura do País ou mesmo com a relação com a plateia.

Sucesso de público, então, não significa lucro garantido?

Não, porque o custo de produção de uma peça atinge hoje valores altíssimos. Mesmo com casa cheia, o produtor não tem condições de pagar o cachê exigido pelos profissionais. Daí, ele dá porcentagem da bilheteria, o que deixa 95% desse total empenhado. E, com os 5% que sobram não é possível manter um espetáculo em cartaz. Resta ao produtor utilizar parte do patrocínio para pagar a manutenção, o que garante dois meses em cartaz. Então, ou ele arruma outro patrocínio ou sai de cartaz.

E qual tem sido a reação de outros atores?

Ainda é difícil encontrar profissionais, particularmente de produção, que entendam esse conceito. “Não posso fazer um acordo com um banco ou um restaurante?”, perguntam. Não! Basta ver nosso cartaz para perceber que não há nenhuma parceria envolvida. O retorno é fazer parte. (UBIRATAN BRASIL)

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