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Peça fala da suposta relação entre Robert e Clara Schuman e Johannes Brahms

'Querido Brahms' estreia em 30 de janeiro no Teatro J. Safra, em

Murilo Bomfim , O Estado de S. Paulo

17 Janeiro 2015 | 16h00

RIO - “Quem vai querer a mexerica da Alcione? Quem vai querer a mandioca da Maria Bethânia?” Essas perguntas foram feitas por Abelardo Barbosa em 1988, no derradeiro Cassino do Chacrinha, enquanto os vegetais eram lançados ao público pelo assistente de palco Russo. 

Ao ouvir o áudio desse momento em uma recente edição do programa de rádio do jornalista Ricardo Boechat, o ator Werner Schünemann ficou, de certa forma, chocado. “Ninguém hoje em dia teria coragem de gravar esse programa, quanto mais exibi-lo”, disse, enfatizando que, com o tempo, a humanidade se encaretou. É isso que mostra Querido Brahms, peça que estreia dia 30 de janeiro no Teatro J. Safra, em São Paulo.

Com texto de José Eduardo Vendramini, o espetáculo se passa na Alemanha do século 19, tempo em que o casal Robert e Clara Schuman eram expoentes da música clássica. No enredo, Clara, interpretada por Carolina Kasting, está grávida de seu sétimo filho (de um total de oito do casal) e, além de lidar com problemas domésticos e tocar sua carreira de compositora e pianista, passa a ter de cuidar do marido, que desenvolve esquizofrenia após contrair sífilis, doença que, àquela época, não tinha cura.


Em dúvida sobre uma possível internação de Schuman, Clara chama o também músico Johannes Brahms, que passara uma temporada na residência do casal, para avaliá-lo e ajudá-la na decisão. Dessa forma, o espetáculo mostra, de forma sutil e sugestiva, um intenso triângulo amoroso no qual todos os integrantes se relacionam.

“O amor entre eles é uma das razões da peça existir: tem algo a acrescentar nos costumes de hoje”, diz Schünemann. “Ainda estamos em uma sociedade tão careta quanto aquela. Não é porque temos smartphones que somos modernos”, afirma, apontando que, para ele, o mundo ficou mais quadrado dos anos 1970 para cá.

Segundo o diretor Tadeu Aguiar, não há informações que comprovem a veracidade do relacionamento, mas a história do trisal causava fofocas e especulações na Alemanha da época. “Eles provocaram e chocaram as pessoas”, diz o encenador. “Três pessoas famosas que viviam fechadas em uma casa.” Aguiar cita outros indícios da liberdade sexual e sentimental de ambos, como a suspeita de que Clara tinha um caso com o maestro e compositor Wilhelm Richard Wagner, o que se concretiza, na peça, por uma forte animosidade quando a musicista fala sobre ele.

Para Carolina, além de abordar o comportamento, a peça tem a importância de falar sobre Clara Schuman que, muito provavelmente por razões machistas, ficou menos conhecida do que os homens que fizeram sucesso na época. “Para me preparar, li uma biografia escrita por uma pianista que ficava agoniada por não encontrar informações suficientes sobre ela”, conta a atriz. “Ela foi uma pianista virtuosa, uma compositora maravilhosa, chegou a reger. Era transgressora na arte e na vida pessoal.”

Schünemann, que tem experiência com personagens históricos - em um tipo de trilogia da Revolução Farroupilha, interpretou Giuseppe Garibaldi no teatro, General Netto no cinema e Bento Gonçalves na televisão - não vê diferenças entre as construções de figuras reais e fictícias. “Mesmo que os personagens existam, o fato de adaptá-los para uma peça transforma-os em ficção”, explica. “Componho o personagem usando as informações que tenho, da mesma forma que faço quando tiro, de um texto, dados sobre um personagem que nunca existiu.”

Na pele de um Brahms de 20 anos, o jovem Olavo Cavalheiro, de 24 anos, se esforça para dar um ar mais experiente ao músico. “Naquela época, um homem de 20 anos era muito mais maduro do que é hoje”, diz. “Ao mesmo tempo em que ele deve parecer mais velho, ele precisa ser mais novo que Robert e Clara, profissionais por quem ele tem grande admiração."

QUERIDO BRAHMS

Teatro J. Safra. R. Josef Kryss, 318, Barra Funda, 2626-0243. 6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 60. Até 29/3. Estreia 30/1. 

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PRODUÇÃO DO ESPETÁCULO

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