Peça 'Condomínio Nova Era' leva caos urbano para o palco

Na história, moradores sofrem desocupação violenta

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2014 | 19h21

 Foi uma experiência real e bem pessoal que levou Victor Nóvoa a escrever Condomínio Nova Era, já em cartaz no Espaço Beta, do Sesc Consolação. Por problemas pessoais, ele teve de morar durante oito meses - entre 2008 e 2009 - em uma pensão simples, em Campos Elísios, bairro próximo à região central de São Paulo. “É um lugar muito rico em diversidade, um funil de coisas interessantes para suscitar a escrita”, diz.

A convivência com moradores distintos e, por vezes, misteriosos, fez com que Nóvoa os transportasse para o texto, adicionando ficção às personalidades dos habitantes e aos conflitos que permeavam o local. O resultado é um espetáculo que aborda assuntos pesados, mas com a poética das peças dirigidos por Rogério Tarifa - que assinou montagens das companhias São Jorge de Variedades e Tijolo.

O enredo de Condomínio... mostra a vida de seis personagens que moram no mesmo prédio, em péssimas condições. O público é introduzido à peça pela fantasma Maria que, após dar pistas sobre a história do local, passa a fala para o síndico do condomínio. É logo no início que o conflito central do texto aparece: em um misto de amargor e fúria, o líder conta que sua comunidade deve sofrer, em breve, uma desocupação. 

Depois deste momento, o próprio elenco monta o cenário: são cômodos que revelam a intimidade e o cotidiano de cada morador. “Construir as coisas na frente da plateia é fazer uma relação com a construção da própria vida”, diz o diretor. “O público poderia entrar já com tudo montado, mas a ideia é provocar essa reflexão de que nós construímos a vida, a sociedade em que vivemos.”

Dividia em dois atos, a peça mostra, no primeiro, quatro cenas que proporcionam uma imersão no cotidiano dos personagens. É aí que se descobre, por exemplo, uma outra face do síndico que luta pela permanência de sua comunidade no prédio, e se conhecem os outros moradores do local. 

Em todas as cenas, há críticas a problemas urbanos contemporâneos - e muitos lembram casos atuais. São situações como a falta d’água, o excesso de violência na TV, os migrantes que, na gana de tentar uma vida melhor na cidade grande, acabam tendo seus planos trucidados. “Após morar na pensão, fiquei com esse pensamento de que felicidade é coisa difícil”, lembra Nóvoa. “É como se o seu sonho fosse apedrejado em praça pública. Você sai do seu lugar, chega em uma cidade gigante e é engolido pelas circunstâncias da vida.” O dramaturgo conta que, entre os moradores do prédio em Campos Elísios, grande parte não era de São Paulo. A própria desocupação faz lembrar histórias recentes, como a reintegração de posse de uma área no cais José Estelita, no centro de Recife. Apesar do despejo ser o ponto central do enredo, a pensão paulistana que inspirou o texto não vivenciou este problema. 

Característica marcante nos trabalhos de Tarifa, o uso do espaço foge do usual. Após o prédio ser cercado pela polícia, os personagens saem do auditório e ocupam outra parte do Espaço Beta. Limpo, o lugar representa o terreno após a demolição do edifício, já preparado para receber a construção luxuosa que está por vir. Os conflitos gerados pela desocupação dão o tom do segundo ato do espetáculo. É clara a crítica às ações violentas da polícia. “É para assumir que fomos transformados em objetos, que a vida perdeu o sentido”, explica Tarifa. O uso da totalidade do Espaço Beta rendeu, à peça, uma temporada maior. Enquanto atrações costumam se revezar no local, Condomínio... domina a programação com quatro apresentações semanais.

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