Paula Kossatz/ Divulgação
Paula Kossatz/ Divulgação

Peça 'Carne' explora a potência do corpo feminino

Em cartaz no Rio, espetáculo aborda temas como sexualidade e envelhecimento

DANIEL SCHENKER - Rio, Especial para O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2014 | 02h06

Daniela Amorim e Karine Teles decidiram somar esforços diante da percepção de que desejavam abordar, ainda que de modos diversos, a potência do corpo feminino a partir da sexualidade, do envelhecimento e da maternidade. Esses "temas" despontam em Carne, trabalho destinado a apenas 20 espectadores por sessão, uma das atrações da quinta edição do Tempo_Festival, em cartaz na Sala A Contemporânea do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.

A sexualidade surge em destaque em Peep Show. Cada espectador é conduzido a uma cabine individual voltada para uma pequena arena. As cabines possuem janelas, de onde o espectador vê o strip-tease feminino, e um fone, por meio do qual ouve um texto, de autoria de Daniela, sobre a força erótica do corpo. "O espectador não tem contato com quem se encontra ao seu lado, na outra cabine. E ninguém enxerga exatamente a mesma imagem, que varia conforme onde cada um está acomodado", explica Daniela.

O envelhecimento vem à tona em Procedimento, parte da apresentação centrada numa escultura de porcelana, criada por Brígida Baltar, que teve como modelo Zaira, de 84 anos, avó de Daniela, que nunca cedeu à tentação das plásticas. "Não somos contra a plástica. Mas achamos importante falar sobre um feminino que não é escravo das operações estéticas. Talvez envelhecer seja uma escolha legal", afirma Daniela.

Karine e Daniela frisam a pressão social sofrida pelas mulheres diante dos efeitos físicos decorrentes da passagem do tempo. "Quando a mulher não ocupa o lugar de matriarca - função que enobrece -, a velhice assusta um pouco. Existe um elogio à juventude na nossa sociedade, guiada pelo olhar masculino. A mulher jovem seduz. Tenho a sensação de que por isso as pessoas fazem tantas plásticas. Se a mulher não consegue reinventar o seu lugar depois que a juventude se foi, fica meio perdida", opina Karine.

Sua visão, contudo, não é desesperançada. "As mulheres estão buscando outro espaço, participando cada vez mais de discussões da sociedade", observa. Nessa parte da performance, o público poderá levar para casa cartazes com procedimentos artísticos impressos - sugestões para ações a serem executadas em frente ao espelho. Carne insinua um eventual descompasso entre a imagem estampada diante do espelho e a interior, entre corpo e alma, discrepância que justifica, em certa medida, os procedimentos físicos frequentemente realizados.

A maternidade irrompe em Placenta, momento no qual a plateia é reunida numa grande mesa e assiste a um parto performático de Karine enquanto janta (de verdade). "Para mim, a maternidade está ligada ao lugar do prover. A placenta é o órgão que alimenta. Em Carne, a mulher alimenta 20 pessoas", relaciona Karine. Daniela e Karine vivenciaram a experiência do parto e alertam para a escolha indiscriminada da cesariana. "Os nossos partos foram naturais. Eu troquei de médico no oitavo mês de gravidez porque a minha sempre mencionava a cesariana", conta Daniela. "A cesariana, em si, é ótima. Afinal, salva vidas. Como opção, porém, representa a interferência num processo fundamental", complementa Karine, que discorre acerca do caráter simbólico do parto. "É o instante em que a mãe se separa do filho. Não é mais uma pessoa; agora são duas. Quando tive meus filhos, fiquei com a impressão de que um pedaço meu saía", relata.

Em Carne, Daniela e Karine "debatem" a respeito de questões femininas (mas não necessariamente exclusivas às mulheres) por meio de uma estrutura que encaminha o espectador tanto para a experiência individual (em Peep Show) quanto para a coletiva (em Placenta). Vale lembrar que o trabalho promove o intercâmbio entre teatro, artes plásticas e multimídia, evidenciado por meio da escultura de Brígida Baltar e de um vídeo, dirigido por Gustavo Pizzi, que integra Placenta. Nas imagens, Karine com seus dois filhos. "É a sobremesa, o momento do amor. Resolvemos mostrar os meninos, explicitar essa alegria", diz Karine.

Para completar, há o registro em vídeo de quatro reencenações, a cargo de Daniela e Karine, de performances de artistas que pensaram o corpo feminino: Touch Cinema (1968), da austríaca Valie Export, Pancake (2001), da brasileira Márcia X, Body Script (2008), da americana Mary Coble, e Draw on Me (2013), da coreana Ji Yeo. A escultura de Brígida, os vídeos de Gustavo e o audiotexto de Daniela permanecem em exposição fora dos horários das sessões. É a oportunidade dos espectadores travarem elos diferenciados com os elementos que constituem o trabalho - independentes das apresentações ou inseridos nelas. Esta dissociação, referente à conexão entre teatro e artes plásticas, já foi praticada por meio de outras iniciativas. Pode ser vista como uma tendência da cena contemporânea.

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