Peça ‘A Lista’ destaca as negligências do cotidiano

Peça ‘A Lista’ destaca as negligências do cotidiano

Com direção de Amir Haddad, Clarice Niskier apresenta espetáculo solo com texto da canadense Jennifer Tremblay

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

17 de novembro de 2014 | 03h00

 Na última quarta, Clarice Niskier estava abarrotada de coisas para fazer. Tinha acabado de chegar a São Paulo. Veio do Rio, onde mora, e fez, no Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, o último ensaio antes da estreia de sua nova peça. Após ensaiar, discutiu diversos ajustes de luz, som e marcação de palco. Em pouco menos de duas horas, faria uma apresentação do espetáculo A Alma Imoral, no mesmo teatro. Neste ínterim, conversou com o Estado. “Ainda não liguei para o meu pai, que tem 89 anos, está super bem e mora no Rio”, disse. “Ele não vai poder vir para a estreia e eu quero dizer a ele que está tudo bem e que ele vai fazer falta.” Na lista de afazeres de Clarice, seu pai tinha ficado para escanteio. E é sobre essas pequenas – e corriqueiras – negligências que trata A Lista, solo da atriz, já em cartaz.

De certa maneira, a peça só existe porque Clarice não negligenciou um e-mail. Após ver A Alma Imoral, Sérgio Melo – coordenador do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Santa Catarina e amigo da irmã de Clarice – notou conexão entre os textos e resolveu enviá-lo à atriz. “Depois de conhecer a obra, me veio uma pergunta: ‘Qual é a sua tarefa urgente para hoje? Se responda isso de verdade”, diz. Há três anos comprou os direitos do texto, com validade para dois anos. Talvez por negligências, só conseguiu montar agora, tendo de renovar o acordo com a dramaturga canadense Jennifer Tremblay.


No enredo, Clarice interpreta uma mulher que carrega o peso da culpa por algo que poderia ter sido evitado. Como uma contadora de histórias, ela narra como conheceu Caroline. No decorrer da história, a ligação entre as duas amigas vai ficando cada vez mais intensa, mas a narrativa é sempre permeada pela imensa lista de tarefas da protagonista, que tem itens como pegar as crianças na escola, fazer o jantar, tirar a neve de cima do carro. A rotina é tão frenética que, às vezes, não há nem tempo de montar uma lista: nesse caso, os afazeres são colocados no papel depois de concluídos, apenas pelo prazer de escrever OK.

Caroline causa certo desconforto na narradora porque leva a vida de maneira despreocupada, mais interessada em passar o tempo perto de seus quatro filhos, com desejo de ter, ainda, um quinto rebento. 

Em um momento, Caroline pede uma ajuda simples à amiga, colocando um item a mais em sua lista. O atendimento do pedido é adiado por meses, depois é desconsiderado e, por fim, uma tragédia acontece e faz com que a narradora reflita sobre o que tem em mente como prioridade.

“A peça vai a um lugar muito nevrálgico e sensível da sociedade”, diz Clarice. “E o interessante é que vai de forma humana, sem um discurso ideológico.” Segundo ela, esse egoísmo exacerbado tem origem na política. Em sua teoria, o sentido de estar a serviço do bem público e ser um exemplo de integridade se perdeu. Contaminada, a sociedade deixa de pensar coletivamente. “Parece que não temos nada a ver com o outro. Contanto que eu esteja bem, está tudo bem.” Para ela, os efeitos da tecnologia não são a causa dessa indiferença. “A internet entra de gaiato no navio. É o bem e o mal, junto à trajetória do ser humano.”

Assim como em A Alma Imoral – que roda o País há oito anos e está em cartaz às quartas e quintas, às 21h, até 11 de dezembro, no Eva Herz – Clarice convidou Amir Haddad para o projeto. Na primeira peça, ele fazia a supervisão da direção. Agora, a direção é totalmente assinada por ele. Por isso, quem viu A Alma deve notar algumas semelhanças com A Lista. Em ambas, a atriz aparece como uma narradora, contando a história ao público com certo distanciamento. A simplicidade dos textos reflete nas cenografias: se Clarice ficava nua e usava apenas uma cadeira no primeiro espetáculo, agora ela usa um figurino cotidiano e, além de uma cadeira, tem um mancebo e um banco.

“Estou apaixonada pelo trabalho do Amir”, diz Clarice. “Nesta nova peça, eu quis aprofundar a linguagem que ele pesquisa”, conta, explicando que o diretor propõe um teatro narrativo, que não seja apenas dramático. Nessa ideia, a atriz, que poderia interpretar uma personagem durante toda a peça, faz as vezes de narradora, reservando a interpretação para momentos específicos. “A preocupação maior é no entendimento do todo, não na arte simples de interpretar um papel. Ninguém precisa de mais ilusões.”

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