Lenise Pinheiro/Divulgação
Lenise Pinheiro/Divulgação

'Palavra de Rainha’ é projeto atípico por olhar passado brasileiro

Peça de Sérgio Roveri recompõe algo da memória nacional

Jefferson Del Rios , Especial para O Estado de S. Paul

26 de outubro de 2014 | 19h08


Um imenso vestido preto cobre o palco. Dentro dele, a atriz Lu Grimaldi, de longos cabelos grisalhos, parece estar no redemoinho de águas turvas ou em um trono coberto de luto. Com este recurso de eloquente efeito dramático, o espectador defronta-se com a voragem da habitualmente pouco conhecida História Luso-Brasileira. O próprio dramaturgo Sérgio Roveri admite que, ao começar a escrever a peça, só guardava duas informações sobre a Rainha Maria I: que era mãe do príncipe D. João VI e era louca. Chegou a um texto conciso que alterna o drama humano, a crueldade do poder absolutista e breves divagações poéticas (“a goteira que pinga de telhados velhos”).

O enredo e a sobriedade do espetáculo, marca de Mika Lins como diretora de talento, são suficientes para impressionar com os passos longínquos dessa nobre que, no comando de Portugal e ainda lúcida, decretou a morte e esquartejamento de Tiradentes, o elo mais frágil da conspiração dos abastados senhores de Ouro Preto que ameaçavam o império lusitano exatamente na sua fonte de maior riqueza (calcula-se que, durante o século 18, o Brasil forneceu 800 mil quilos de ouro a Lisboa). 

Recupera a voz da soberana que proclamou “Eu juro e prometo, como a vigésima sexta cabeça coroada na História de Portugal e a primeira mulher a ser rainha de fato, vos reger e governar bem”. Ao mesmo tempo, relembra a pessoa trágica que perdeu cinco filhos e, tomada pela insanidade, chegou ao Brasil foragida da invasão napoleônica. Fez parte do seu desvario dizer “sonhei que vou morrer louca e em terra estranha”. Tudo se cumpriu. 

Sérgio Roveri junta extremos coletivos e individuais. Teria sido bom explicar melhor algumas circunstâncias como o ódio da rainha ao Marquês de Pombal, símbolo do despotismo esclarecido, o estadista que quebrou os privilégios totais da nobreza e da Igreja (extinguiu a Inquisição e enquadrou os poderosos jesuítas, expulsos do Brasil) enquanto favorecia a nascente burguesia negociante para modernizar o país. Figura complexa que, sob o lema “enterrar os mortos e cuidar dos vivos”, agiu com firmeza bruta quando o terremoto de 1755 destruiu quase toda a capital portuguesa e arredores, 

Sebastião José de Carvalho (Pombal) é naturalmente um forte personagem de teatro. Se Roveri aprofundasse o assunto, a obra teria muito a mostrar. É apenas uma constatação porque seu objetivo aqui, e plenamente atingido, é a solidão do poder. Tiranos e beneméritos, às vezes, necessitam, como Ricardo III, segundo Shakespeare, exclamar “Meu reino por um cavalo”. Em seu empenho artístico de valorizar a palavra, Mika Lins enfatiza uma vida estranha recriada por Lu Grimaldi, intérprete que se impõe com a força do olhar. Iria mais longe, quem sabe, com outro volume e alcance vocal. A montagem é um projeto atípico no melhor sentido porque olha o passado brasileiro. Sagas libertárias, heroísmos, dramas políticos estão debaixo do esquecimento teatral quando já foram espetáculos de sucesso (vale relembrar Arena conta Zumbi, Arena Conta Tiradentes, Castro Alves Pede Passagem, obras de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal; e mais: Calabar, de Chico Buarque). 

Em 2014, os 60 anos do suicídio de Getúlio Vargas passam em branco quando, antes, motivaram os espetáculos Dr. Getúlio, Sua Vida e Sua Glória, de Dias Gomes e Ferreira Gullar, e O Tiro Que Mudou a História, de Aderbal Freire Filho e Carlos Eduardo Novaes. Num momento em que Frei Caneca, depois de ser dramaturgia de Carlos Queiroz Telles encenada por Fernando Peixoto, hoje é só nome de shopping, Palavra de Rainha recompõe algo da memória nacional em um espetáculo de sóbria beleza. 

PALAVRA DE RAINHA

Teatro Viradalata. Rua Apinajés, 1.387, Sumaré, 3868-2535.

6ª e sáb., 21h30; dom., 20h30. R$ 30. Até 30/11. 

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