BOB SOUSA/DIVULGAÇÃO
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'Os Irmãos Karamázov' é encenado pela primeira vez no Brasil

Projeto 'Karamázov', da Companhia da Memória, é dirigido por Ruy Cortez e apresenta três espetáculos na SP Escola de Teatro

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

31 de outubro de 2014 | 16h27

Não é recente a identificação de Ruy Cortez com a Rússia. Pesquisador do método Stanislavski, o diretor fez três residências artísticas no país. Na última delas, em 2010, ficou em uma faculdade ligada ao Teatro de Arte de Moscou. Lá, acompanhou o projeto de duas turmas: uma delas encenaria Os Irmãos Karamázov, de Fiodor Dostoievski. “Já era o meu romance preferido”, diz Cortez. “Quando cheguei lá, tinha lido a obra uma vez e reli para o projeto. De volta ao Brasil, li outras três vezes”, lembra, enfatizando que a experiência na Rússia reavivou sua relação com o texto. Decidiu, então, encenar Karamázov, uma trilogia que estreia hoje, em sequência, na SP Escola de Teatro.

A primeira peça, no entanto, não tem relação direta com a obra. Uma Anedota Suja parte do conto Uma História Lamentável, também de Dostoievski. O enredo mostra a história de Ivan Pralinski, um funcionário público que invade a festa de casamento de um subordinado para aplicar sua filosofia – ele quer praticar a bondade com as pessoas de classes mais baixas. Para Cortez, essa obra tem o embrião filosófico do niilismo do autor, ideia que tem seu ponto alto em Os Irmãos Karamázov. “Ali, ele trata do tema da vida dele, que é a discussão da existência ou não de Deus, do livre-arbítrio, da liberdade”, diz. “A ideia é mostrar o início de tudo, para que o pensamento seja compreendido.”

Do romance principal saem as duas outras peças. Dividida em dois atos. Os Irmãos é o cerne da trilogia. Conta a história de quatro irmãos (Dmitri, Ivan, Aliócha e Smerdiakóv Karamázov) e sua conturbada relação com o pai, o cínico Fiodor Pávlovitch Karamázov. No enredo, Dmitri disputa uma mulher com o próprio pai, em um conflito que também envolve questões de herança. Cada um com sua função dramática, os outros irmãos também se envolvem no imbróglio, até que ocorre um parricídio.

Os Meninos fecha o conjunto de peças. Mais curta que a anterior, tem base em um dos capítulos finais do romance e funciona como um epílogo. O excerto conta a história de Sniguerióv, um pai devoto que perde seu filho, morto em decorrência de tuberculose. As histórias se relacionam porque Sniguerióv leva uma surra de Dmitri, sendo humilhado perante toda a cidade. É Aliócha que tenta amenizar a vergonha que a família sente. “Essa passagem representa um sopro de esperança”, diz Luís Alberto de Abreu, que assina a dramaturgia com Calixto de Inhamuns. “Após falar de um pai egoísta, voltado para si e que despreza os filhos, ele mostra outro pai, que ama o filho e sofre com a separação de ambos.”

Durante sua pesquisa, Cortez teve contato com textos do filósofo Mikhail Bakhtin. Também russo, ele vê na trajetória de Dostoievski a inauguração do romance polifônico. “É essa multiplicidade que me interessa. É um gênero de literatura que abre espaço para várias formas, como novela, policial, sátira, tragédia”, diz. Para o diretor, que já tinha encenado o autor em 2006 em Lázaro – Uma Adaptação de Crime e Castigo, essa característica se torna o grande desafio da montagem: é necessário lidar com a vastidão de gêneros, poéticas e estéticas.

Com poucos elementos em cena, Cortez dirige de maneira simples. Dividida em lados opostos, a plateia tem visões diferentes sobre as peças. No palco quadrado, os atores circulam sobre uma lona que se adapta às exigências da cena: às vezes está apenas estirada no chão, em momentos é içada e cria uma porta, em outras serve de esconderijo aos personagens. Há um nítido jogo de cores na lona, que se repete nas luzes e nos figurinos, criando contrastes. 

Os poucos objetos – há apenas sinos e chapéus que indicam o personagem interpretado por um dos quatro atores – dão margem para o espectador imaginar a própria peça: a sensação é quase a mesma de se ler um livro. Apesar de ter personagens fixos, o elenco se mostra mais como uma trupe de narradores: contam a história de maneira onisciente e, em momentos mais intensos, interpretam. Principalmente em Os Meninos, são acompanhados por músicos que executam piano e violino.

Segundo Abreu, a polifonia do romance de Dostoievski não se restringe à diversidade de gêneros literários: se estende aos personagens. “Cada um é um universo. A voz deles é tão forte que eles podem até alterar a trama”, diz o dramaturgo, explicando que, em vez de retilínea, a ação é sempre truncada pela força dos personagens. Um exemplo disso é o próprio capítulo que originou Os Meninos: antes de narrar o julgamento do parricídio, Dostoievski faz um corte abrupto para contar a passagem de Sniguerióv. “É como Shakespeare: cada personagem secundário rende uma nova peça.”

QUEM É

Fiodor Dostoievski - Escritor

Nascido em Moscou em 1821, Dostoievski se consagrou como um dos maiores romancistas da Rússia e do mundo. Ganhou notoriedade por obras como Crime e Castigo e O Idiota. Morreu em 1881, em São Petersburgo.

TRILOGIA KARAMÁZOV

SP Escola de Teatro. Praça Roosevelt, 210, 3775-8600. 

Uma Anedota Suja. 6ª e sáb., 20 h; dom., 17 h; 2ª, 19 h. R$ 20.

Os Irmãos. 6ª e sáb., 21h30; dom., 18h30; 2ª, 20h30. R$ 20.

Os Meninos. 6ª e sáb., 23h30; dom., 20h30; 2ª, 22h30. R$ 20. 

Até 15/12.

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