GABRIELA BILLO/ESTADÃO
GABRIELA BILLO/ESTADÃO

Núcleo Bartolomeu de Depoimentos é despejado

Integrantes da companhia receberam oficial de justiça na manhã de ontem; coletivo é patrimônio imaterial da cidade

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2014 | 18h49

Após meses de negociações com a Ink Incorporadora, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos foi ontem despejado de sua sede. Segundo Eugênio Lima, um dos fundadores do grupo, um oficial de justiça chegou ao imóvel – situado na Rua Doutor Augusto de Miranda, 786 – com quatro viaturas da Polícia Militar (PM) para fazer o despejo.

O coletivo trava um embate com a incorporadora desde dezembro do ano passado, quando recebeu um pedido de desocupação pelo proprietário. O local dará espaço ao empreendimento residencial Tetrys Pompeia. “Quando tentei conversar, disseram que não iriam discutir sobre direito comigo”, diz Lima, acusando a empresa de passar uma imagem de conciliadora para a imprensa e agir com truculência, na prática.

Lima afirma que houve uma tentativa recente de acordo, mas a incorporadora parou de responder. “Tivemos uma reunião no dia 13 de outubro, mas não entramos em um consenso e a Ink prometeu enviar uma proposta. Recebemos essa proposta no dia 23 de outubro: pediam que comprássemos uma unidade do empreendimento com desconto para que vendêssemos depois, e essa seria a nossa indenização.” O grupo, então, teria respondido sugerindo que a incorporadora vendesse um dos apartamentos e indenizasse o grupo com o valor.

“Não houve contraproposta”, afirma Lima. “No dia 29 de outubro, entraram com uma liminar de urgência para despejo coercitivo para acelerar a nossa desocupação do imóvel.”

Às 22h30 do dia 11 de novembro, Claudia Schapira teria recebido uma notificação na sede, para que o grupo saísse em 15 dias. Lima diz que o grupo foi orientado a entender que esses 15 dias não estavam valendo, com o argumento de que, em vias normais, a decisão deveria ter sido juntada.

A última quarta-feira seria, então, a data-limite para a saída do grupo. Além das viaturas da PM, caminhões e carregadores participaram do despejo, esvaziando o imóvel que estava ocupado com toda a estrutura do teatro – varas de luz, fiação, aparelhos de som –, quadros, cenários de espetáculos do próprio Bartolomeu e de outras companhias.

O Núcleo Bartolomeu de Depoimentos é um dos 22 grupos teatrais registrados, em setembro, como patrimônio imaterial pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp). A ação teria peso para a proteção das manifestações culturais da cidade. “Muito habilmente, a Ink suprimiu essa informação do processo”, informa Lima. “Nos documentos não há referência de que o local abrigava um teatro.”

Contatada pela reportagem, a Ink Incorporadora não se pronunciou até o fechamento desta edição. Em notas enviadas ao Estado em ocasiões anteriores, a empresa afirma que abriu diálogo com o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos em dezembro do ano passado e que, desde então, honrou o pedido de permanência no imóvel até maio e, no entanto, o local não foi desocupado como teria sido combinado previamente. A Ink diz ter, desde julho, o alvará que dá o direito à ordem de despejo, porém optou pelo diálogo. O advogado da empresa alegou que o Núcleo deixaria o imóvel até o fim de julho, o que não ocorreu. A incorporadora garante cumprir a legislação vigente.

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