Nova peça do ator Bruno Mazzeo faz convite à reflexão

'Sexo, Drogas e Rock'n'Roll' também tem pitada de humor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

03 de novembro de 2014 | 18h25

O que está ocorrendo com o rei da comédia? Bruno Mazzeo está virando o sr. Drama. “Nem brinca”, ele responde à provocação do repórter. Mas é verdade. Bruno estreia amanhã a peça Sexo, Drogas e Rock’n’Roll no Theatro Net. Sucesso de mais de nove meses no Rio, a montagem fala dos excessos do mundo atual. É um monólogo e Bruno faz seis personagens. De cara, é um drogado que culpa todo mundo por seu vício. Alguns amigos pediram - “Tira essa parte.” Ou então - “Começa pegando mais leve.” Marcos Caruso foi ver e aprovou. “Tá certo. Tem de começar enfiando o pé, sem arreglo.”

Muita Calma Nessa Hora, Cilada.com, E Aí, Comeu?, Muita Calma 2. Bruno Mazzeo não nega. Como estratégia de sua produtora para se estabelecer no mercado, foram produzidos não dois, mas quatro blockbustrers. OK, algum poderia ter dado errado, mas foram todos êxitos de público - de público. Bruno se acostumou ao ódio dos críticos. Está estranhando. Sexo, Drogas está tendo críticas ótimas. Gente que ele admira e respeita - Wagner Moura, Marcos Caruso - derramou-se em elogios. O retorno ao teatro não se fez por acaso. De tanto tomar porrada, Bruno resolveu voltar ao palco. A última peça, há sete anos, fora elogiada por ‘Dona Bárbara’ (Heliodora), uma referência da crítica no Brasil.

Sexo, Drogas e Rock’n’Roll é uma montagem de Victor Garcia Peralta com texto do norte-americano Eric Bogosian. Você sabe quem é. Em 1988, Oliver Stone adaptou outro texto do autor e o próprio Bogosian interpretou o filme Talk Radio. Quando Bruno propôs a parceria teatral ao amigo Peralta, ele acenou com duas peças. Bruno pediu a outra amiga - Luciana, a Lu - que o ajudasse a escolher. Ela achou Cine Monstro - que foi encenada por Enrique Diaz - muito pesada, mas disse que Sexo, Drogas tinha a cara dele. Só que eram 11 personagens. Bruno e Peralta buscaram seu caminho. Adaptaram o texto, reduziram os personagens. Chegaram ao espetáculo de 70 minutos.

Só? “A menos que seja a coisa mais relevante do mundo, um Shakespeare, não há por que submeter o público a uma longa duração”, ele reflete. Sexo, Drogas e Rock’n’Roll tem humor, mas não é bem uma comédia. As pessoas começam rindo, mas o riso vai congelando na garganta. No palco, a sociedade - o sistema - reflete-se num bando de hipócritas, cínicos, malucos e viciados que não pensam em outra coisa senão em exercitar seus jogos de poder. Bruno cita mais um, além do drogado. “Tem um empresário que demite sem dó o velhinho que lhe deu a primeira chance na firma. O cara vai ficar sem seguro de saúde? ‘Não sou médico dele.’ Tudo pela rentabilidade, é o lema.”

A montagem é enxutíssima. Um cenário neutro, caracterização dos personagens apenas pela voz e pelo gestual. “Não sou meu pai nem o Marcelo (Adnet), que têm essa inesgotável capacidade de criação de tipos.” Chico Anísio, o pai, foi seu mestre. “Tenho saudade dele todo dia”, confessa, e o olhar anuvia-se, por um instante. A fama é de arrogante, mas se há uma coisa que ele tenta passar para o filho João, de 9 anos, é que, pelo fato de estar na mídia, não é nem um pouco melhor que os outros. ‘Tão modesto assim?’, de novo o repórter provoca. “Sou, cara. Meu pai, que era gênio, acreditava na força do trabalho, na dedicação. Quero ser bom no que faço, o melhor, mas isso não é dom. Se acontece, ou quando acontece, é com muito suor.”

Bruno nem se acha engraçado. “Engraçados são o Fábio (Porchat), o Leandro (Hassum)”, por sinal, seus amigos. No mês que vem, estreia Caras de Pau, que ele só produziu. “O João (filho) vivia reclamando que não podia ver meus filmes porque eram impróprios, comprei os direitos e fiz essa aventura infantojuvenil cheia de ação e efeitos para ele”, revela papai. 

Com a fama de arrogante, tinha outra, a de brigão. Bruno Mazzeo bateu muita boca com o pessoal do stand-up. “Ah, não, isso foi fase, já passou. É do tempo que eu tinha twitter. Naquela época, sim, tudo o que eu twittava repercutia. Mas, cara, essa coisa de ser celebridade não é fácil. Não é só assédio. Sai muita mentira na internet. Outro dia, estava com um grupo de amigos e, na hora, já surgiram versões do que a gente estava aprontando. Num restaurante, peguei o guardanapo e passei no rosto e saiu a foto como se eu estivesse assoando o nariz, com legenda desrespeitosa. Não te deram educação, rapaz, coisa desse tipo.”

Embora esteja numa fase de ver muitas séries, ele acompanha o que fazem os amigos. A internet pautou um certo tipo de humor que encontrou respaldo na Globo. “Acho notável o que o Adnet vem fazendo. O humor dele é crítico da Globo e a emissora não o censura, antes o incentiva a ousar mais.” Nada o irrita mais do que a correção política. “Não é uma questão de censura nem de autocensura. Você, a sua geração, sabe bem o que é isso. Para mim é uma chatice.” Ele tem andado fora da TV, mas está escrevendo uma proposta de programa com Alexandre Machado. Faz segredo - “Ainda não apresentamos à emissora” -, mas antecipa que se trata de humor de época, como o que fazia no Baú do Baú do Fantástico. Do ponto de vista dele, o programa não repercutia. “Ninguém comentava na ruas, mas o ibope não era ruim.” Por conta disso, tem visto séries históricas como Os Bórgias, que ama.

SEXO, DROGAS E ROCK'N'ROLL

Theatro NET. Rua Olimpíadas, 360, tel. 4003-1212. 4ª e 5ª, 21h. R$ 80/R$ 100. Até 27/11.

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