No palco, ‘Se Eu Fosse Você’ repete a comédia que foi líder de bilheteria

Musical traz de volta o desafio da troca de corpos

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2014 | 20h44

O desafio era instigante: conciliar no palco dois atores com experiências artísticas totalmente distintas. De um lado, Cláudia Netto, atriz regrada, voltada para a estrutura teatral, uma das principais intérpretes do teatro musical brasileiro, com elogiada participação em espetáculos como O Rei e Eu e Judy – O Fim do Arco-íris, em que viveu Judy Garland. Do outro, Nelson Freitas, mais intuitivo, naturalista, com a veia cômica ditando seus passos, um dos destaques do programa Zorra Total. O que parecia ser inconciliável resultou no principal ingrediente do sucesso de Se Eu Fosse Você – O Musical, que estreia hoje, no Teatro Cetip, no Complexo Ohtake Cultural.

“Eles construíram o entrosamento ao longo dos ensaios e também durante a temporada carioca”, conta o diretor e coreógrafo Alonso Barros. “Isso era essencial, pois a trama depende exclusivamente dessa troca.” Baseado em dois dos grandes sucessos do cinema brasileiro, os longas Se Eu Fosse Você 1 e 2, o musical parte do mesmo ponto da comédia criada por Daniel Filho, que é o tema da transferência de corpos: Cláudio e Helena vivem um casal em crise por conta da incompreensão. A situação atinge tal limite que os dois chegam a desejar estar um na pele do outro, para saber o que pensam e sentem. Na manhã seguinte, uma mágica misteriosa faz com que eles troquem de corpo literalmente, o que resulta em uma série de confusões.

Para trazer a trama para o palco, Daniel Filho – que iria dirigir o espetáculo, mas preferiu deixar a tarefa para Alonso – enfrentou um problema logo no início: quais canções acrescentar a um original que não tem música? “Tínhamos que ter uma boa trilha de um compositor brasileiro. Com músicas que estivessem na memória do público”, conta ainda Daniel, que recebeu a solução de uma enteada, Barbara Duvivier: por que não Rita Lee? 

A solução revelou-se ideal – com letras ao mesmo tempo românticas e bem-humoradas, as canções de Rita se encaixaram com perfeição na história do casal que troca de corpo. Também auxiliou na trama paralela, em que a filha (vivida por Lua Blanco) de Helena (Cláudia) e Cláudio (Nelson) sofre para comunicar aos pais que está grávida – por conta disso, o musical começa com ela cantando Ovelha Negra.

Trata-se da primeira das 28 canções selecionadas por Guto Graça Mello, convidado para assinar a direção musical, que elegeu grandes hits como Mania de Você e Miss Brasil 2000. Em alguns momentos, aliás, chegou-se a um nível rebuscado. “Em Balada do Louco, por exemplo, o Guto realizou um de meus sonhos e acrescentou, como introdução, os acordes do Noturno, de Chopin”, confessa Alonso, que criou passos originais para o espetáculo. “Cerca de 20% das músicas da Rita necessitam de um complemento e isso vem com a coreografia.”

O ponto alto, no entanto, é a troca de corpos entre Helena e Cláudio. “Eu e Nelson nos ajudamos mutuamente nos mínimos detalhes”, conta Cláudia Netto. “Ele me orientou, por exemplo, a como segurar melhor uma mulher, a melhor forma de andar e as expressões que os homens normalmente dizem.”

Em troca, ela passou dicas sobre gestos mais delicados e forma de falar. “Evitamos sempre o risco de cair na caricatura, o que comprometeria o trabalho”, completa Nelson que, para modular a voz, trabalhou com a fonoaudióloga Ângela de Castro, especialista em trabalhar com transexuais. “Ela me passou um aparelho que me permitia ouvir minha própria voz. Assim, deixei o tom gritado para chegar ao suave ideal.”

Se Eu Fosse Você – O Musical é a segunda parte de uma trilogia produzida pela Aventura Entretenimento, iniciada com Elis – A Musical. O próximo espetáculo será Chacrinha – O Musical, com direção de Pedro Bial, a estrear em novembro, no Rio.

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