Lenise Pinheiro/Divulgação
Lenise Pinheiro/Divulgação

Nicette Bruno homenageia o marido, Paulo Goulart, que morreu em 2014

Para falar de dor, saudade e superação, atriz estreia no Rio a peça 'Perdas e Ganhos'

Daniel Schenker , Especial para O Estado de S. Paulo

07 Janeiro 2015 | 20h35

RIO - “O teatro sempre teve uma função fundamental para mim. Nele comecei aos 14 anos, me casei, criei a minha companhia, vi meus filhos iniciarem suas carreiras, me despedi do Paulo e agora o estou homenageando”, afirma a atriz Nicette Bruno que estreia – nesta sexta (9), no Teatro do Leblon – Sala Fernanda Montenegro, no Rio – a montagem de Perdas e Ganhos, inspirada no livro de Lya Luft. 

O projeto já existia antes da descoberta da doença do marido, o ator Paulo Goulart, que morreu de câncer, em março de 2014, mas ganhou especial relevância com a partida dele. “O trabalho ajuda quando você passa por uma fase difícil. Preenche a sua mente, o seu lado de realização. Ainda mais nesse caso, na medida em que a obra de Lya propõe uma reflexão sobre a vida”, observa Nicette. 

O trabalho vem sendo seu remédio. A atriz estreou o espetáculo em Porto Alegre (com Lya na plateia) e apresentou em Brasília, Campinas e Curitiba. Depois do Rio, planeja mostrá-lo em São Paulo. No entanto, não há data marcada para a temporada paulistana porque Nicette dará início, em breve, às gravações de Lady Marizete, próxima novela das 19 h, da TV Globo, de Alcides Nogueira e Mário Teixeira.

A natureza familiar da montagem de Perdas e Ganhos é acentuada pelo fato de Nicette ser dirigida pela própria filha, a também atriz Beth Goulart. “Esse projeto foi concebido num momento da nossa vida ligado à perda do meu pai. Mas, hoje, percebemos esse momento mais pela possibilidade da superação do que pela dor da perda”, diz Beth. 

Não é a primeira vez que mãe e filha trabalham juntas. Beth estreou, aliás, num espetáculo que tinha a mãe, a avó (Eleonor Bruno) e a irmã (Barbara Bruno) no elenco – O Efeito dos Raios Gama nas Margaridas do Campo, de Paul Zindel, em 1974. Muitos anos depois, substituiu Claudia Lira em Somos Irmãs, de Sandra Louzada, montagem com Nicette.

Mãe e filha se desenvolveram como atrizes de perfis distintos. “Eu optei por um caminho mais alternativo, diverso do que meus pais seguiram. Estudei butô e clown, busquei um teatro mais físico. Em Perdas e Ganhos, aproveitei as diferenças que existem entre nós e propus um diálogo entre o teatro contemporâneo e o clássico. Cheguei com a novidade e ela me devolveu a experiência”, resume Beth.

Perdas e Ganhos tem sabor de ineditismo para Nicette, que enfrenta o seu primeiro monólogo. “O Homem Inesperado contava com uma estrutura de monólogo, mas até determinado ponto”, lembra a atriz, referindo-se ao texto de Yasmina Reza. Foi uma de suas várias parcerias com Paulo no palco, valendo evocar as montagens de Céu de Lona, de Juan Carlos Gene, Enfim Sós, de Lawrence Roman, e Sábado, Domingo e Segunda, de Eduardo de Filippo.

A adaptação de Perdas e Ganhos para o teatro – mais uma tarefa que ficou a cargo de Beth – trouxe mais desafios para Nicette. Beth investiu em operações, como a inclusão de personagens de outro livro de Lya, O Silêncio dos Amantes. “Perdas e Ganhos é um livro reflexivo, que não traz uma história. Como levá-lo para a cena? Senti necessidade de mais personagens e pedi autorização à Lya”, relata Beth. 

Na estrutura, Nicette transita entre um registro mais “transparente”, a narradora e as personagens – uma mãe que perde o filho, uma mulher traída pelo marido que encontra um homem atravessado por uma tragédia e uma dona de casa que descobre que tem algo estranho nas costas e vira um anjo. Esta última surge em projeção de imagens pré-gravadas. “A personagem que aparece em filme é a mais onírica. Achei que seria mais rico revelá-la desse modo”, explica Beth, que permaneceu norteada pelo principal: “Tudo foi pensado para minha mãe”.

Nicette sente familiaridade em relação às palavras de Lya. “Ela possui uma forma simples de expor suas ideias. Realça que é preciso saber que a força decisiva tem que vir de nós. Nos instantes das perdas tendemos a esquecer de que haverá aprendizado. É importante enfrentá-los de maneira consciente, equilibrada, para que possamos entender um pouco sobre a vida”, constata.

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