Nathalia Timberg inaugura teatro J. Safra com monólogo

Novo espaço, localizado na Barra Funda, abre ao público no dia 25 de julho

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

19 de julho de 2014 | 16h00

Nathalia Timberg entra pela primeira vez no espaço como se conhecesse um santuário: avalia as cadeiras cintilantes de nova, observa a altura da plateia superior, admira a extensão do espaço. De tão embevecida, não percebe um degrau e quase leva um tombo. “Sou conhecida pelos acidentes que sofro e só faltava estrear o espaço com uma queda”, diverte-se. Próxima dos 85 anos de vida (completa dia 5 de agosto) e já festejando 60 de carreira, a atriz descobriu, na tarde de quinta-feira, as dependências do novo teatro J. Safra, na Barra Funda, que será inaugurado por ela no dia 24, em sessão para convidados – o público terá acesso a partir do dia 25.

Serão apenas quatro récitas de Paixão, delicado espetáculo apresentado pela primeira vez em 1994, mas que retorna inteiramente remodelado. “Tirei os excessos cênicos, deixando apenas um baú, uma escada e uma poltrona”, conta Nathalia. “Também os músicos, que estavam escondidos, ficarão no palco, pois dialogo com as canções.”

O cuidado não é excessivo tampouco caprichoso – Paixão é uma celebração à palavra, expressa na poesia de Fernando Pessoa, Adélia Prado, Drummond, Bocage, Camões, Manuel Bandeira, Florbela Espanca entre outros, que Nathalia pronuncia com um cuidado exemplar, a ponto de transformar o encontro com o público quase em uma conversa íntima. “Preciso do microfone, pois quero que as pessoas sentadas nas fileiras mais distantes também ouçam trechos, que, muitas vezes, falo quase sussurrando.”

O espetáculo foi proposto pela escritora e psicanalista Betty Milan, que adaptou para o teatro Os Dizeres do Amor, um capítulo de seu livro E o Que É o Amor?, alinhavando com fragmentos de poemas daqueles autores. E, enquanto fala, Nathalia é acompanhada por dois músicos (um pianista e um violoncelista), que apresentam uma trilha especialmente composta para o espetáculo por Julio Medaglia. “As melodias se encontram”, diz a atriz.

O envolvimento de Nathalia Timberg com as nuances das palavras se confunde com sua carreira artística, iniciada profissionalmente com a montagem de A Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues, em 1954, quando interpretou D. Eduarda, sob a direção de Bibi Ferreira. “Tenho um carinho muito grande pela palavra, especialmente porque, nos últimos tempos, ela foi muito maltratada”, comenta a atriz. “As pessoas passaram a se comunicar quase que por onomatopeias. O pensamento ficou quase tão vago quanto sua expressão. Mas é preciso lembrar que são as palavras que dão as nuances, os matizes que diferenciam as ideias.”

Essa é a força motriz de Paixão, monólogo que se transforma em conversa à medida que Nathalia, com sua voz de tessitura grave, marcada por intervalos reflexivos entre as frases, gestos comedidos e elegantes, pronuncia fragmentos de poemas de Adélia Prado, Bocage, Drummond, Fernando Pessoa, Camões, Manuel Bandeira, Florbela Espanca e outros poetas brasileiros e portugueses. “Pronuncio, jamais declamo”, avisa ela. “Desde que estudei na escola dramática fundada por Jean-Louis Barrault, no início da minha carreira, aprendi que a declamação é a pior forma de se dizer versos.”

Assim, para que o ritmo poético se adapte perfeitamente à fala cotidiana, Nathalia contou com a colaboração do professor e linguista Haquira Osakabe, responsável pela pesquisa sobre as líricas portuguesa e brasileira. Com isso, a atriz consegue tornar atual até mesmo poesia escrita em idioma arcaico, como uma Cantiga de Amigo que, na lírica galego-portuguesa, é uma composição breve e singela, na voz de uma mulher apaixonada. “Apesar da estranheza das palavras, a musicalidade é encantadora, a ponto de Amália Rodrigues ter gravado uma cantiga há alguns anos.”

Não foi à toa, portanto, que Nathalia fez uma rigorosa inspeção no Teatro J. Safra, na primeira visita que fez, na quinta-feira, acompanhada do Estado. A atriz aprovou o madeiramento do palco, pediu a instalação de mais varas de luz e, mentalmente, começou a reduzir o espaço de cena, uma vez que o espetáculo pede uma área menor, mais íntima. “Não posso me movimentar muito, para não desviar a atenção do público”, comentou ela que, em determinados momentos, gostaria que os espectadores nem percebessem a movimentação de seus lábios.

Tamanho domínio do espetáculo – foi dela também a decisão de modificar o cenário, diminuindo os elementos em cena – transformou a atriz em uma codiretora, ao lado de Wolf Maia, que assinou a montagem original, de 1994. “A concepção é dele, mas fui responsável por várias alterações”, conta.

A segurança vem de uma carreira sólida, que completa agora 60 anos. Nathalia participou da montagem de textos clássicos contemporâneos, desde os franceses Marguerite Duras e Sartre aos americanos Arthur Miller e Eugene O’Neill. Encenou também trabalhos de dramaturgos nacionais, como Nelson Rodrigues (A Senhora dos Afogados) e Dias Gomes (participou da célebre encenação de O Pagador de Promessas, com direção de Flávio Rangel, no TBC, em 1960).

Ainda que considere o teatro sua moradia, a televisão lhe trouxe uma estrondosa visibilidade, especialmente quando assumiu o papel da vilã, como Juliana, em A Sucessora (1978), Constância Eugênia de O Dono do Mundo (1991) ou, ainda, a inescrupulosa e amarga Idalina, de A Força de um Desejo (1999). O próximo desafio poderá render outro papel marcante: o de uma senhora que vive há anos com outra mulher, em Três Mulheres (título provisório), novela de Gilberto Braga, que deverá estrear em 2015, na Globo. Fernanda Montenegro será sua companheira. “Já conversamos um pouco a respeito e nos divertimos muito”, brinca a atriz.

PAIXÃO

Teatro J. Safra. R, Josef Kryss, s/nº, Barra Funda, 2626-0243. 6ª, 21h30; sáb., 21 h; com., 19h. R$ 70/ R$ 80. De 25 a 27/7. 

Show de Gal Costa ocupará o teatro em seguida

Com a apresentação de Paixão, para convidados, na próxima quinta-feira, será inaugurado um novo teatro em São Paulo, o J. Safra, no bairro da Barra Funda. Com 633 lugares, o espaço tem plateia e balcão, além da curadoria artística e direção da dupla Maurício Machado e Eduardo Figueiredo.

Depois de Nathalia Timberg, o palco será ocupado por Gal Costa – a cantora fará apresentações de seu show Voz e Violão, ao lado do músico Luiz Meira, entre os dias 1º e 10 de agosto.

Marília Pêra, com o musical Herivelto como Conheci, em que interpreta os sucesso de Herivelto Martins, estava também na programação do teatro, mas seus problemas de saúde obrigaram o adiamento da estreia. Ainda não hã nova data para o espetáculo. / U. B.

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