ALEJANDRO PAGNI/AFP PHOTO
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Morre a atriz uruguaia China Zorrilla

A artista teve trajetória de quase 70 anos em produções cinematográficas e teatrais sul-americanas

Ariel Palacios, O Estado de S. Paulo

17 Setembro 2014 | 17h45

BUENOS AIRES – Vítima de uma pneumonia, morreu ontem (quarta-feira) aos 92 anos em Montevidéu, a uruguaia Concepción Zorrilla de San Martín Muñoz, popularmente conhecida como China Zorrilla, definida como o “monstro sagrado” do teatro e do cinema platino, já que no último meio século foi considerada a atriz mais emblemática da Argentina e do Uruguai. A atriz teve uma trajetória de quase 70 anos nos palcos e nas produções cinematográficas sul-americanas.

Nas primeiras horas após a notícia de sua morte, intelectuais nos dois lados do rio da Prata, em clima de luto, expressaram ontem sua dor pela partida da atriz, além de destacar sua marca na dramaturgia da região. “China não era velha...tinha vários anos acumulados, mas não era velha. Trabalhou até o final”, exclamou o ator argentino Pepe Soriano. “Ela não morreu ...simplesmente foi fazer uma turnê”, acrescentou.

Filha do principal escultor uruguaio, José Zorrilla de San Martín, e neta do poeta nacional desse país, Juan Zorrilla de San Martín, China nasceu em Montevidéu em 1922 No entanto, passou parte da infância em Paris e na juventude estudou em Londres. De volta a seu país protagonizou as principais obras teatrais. Polivalente – e de atividade frenética - trafegou com naturalidade entre as comédias e os dramas. “Fazer drama e comédia... é uma ginástica!”, costumava dizer.

China Zorrilla dirigiu montagens de óperas, fundou teatros e produziu peças e filmes. Ela foi a protagonista de diversos filmes argentinos e espanhóis, entre eles, “Elsa e Fred”, de 2005, exibido no Brasil.

Um de seus principais sucessos foi a comédia “Esperando a carroça”, de 1985, que transformou-se em “cult” na Argentina. A atriz recebeu a Legião de Honra da França, entre outras honrarias internacionais.

Ao longo da última década, apesar do peso dos anos e dos problemas de saúde, a dama do teatro e cinema platino permaneceu em plena atividade, elaborando novos projetos. Em 2010, aos 90 anos, realizou em Buenos Aires um ciclo de “teatro lido”, isto é, a leitura de obras de teatro em diversos centros culturais portenhos onde o público acotovela-se para assistir a lendária atriz.

Na ocasião, em entrevista ao Estado, China Zorrilla declarou que pretendia permanecer na ativa por muito tempo: “a gente começa a envelhecer no dia que não temos mais projetos”. Mas, em 2011, por causa de seus problemas de saúde, teve que deixar suas atividades profissionais e voltou a Montevidéu, onde ficou sob os cuidados de seus sobrinhos.

Na entrevista a atriz também indicou que o processo de envelhecimento era “uma coisa difícil de explicar”: “quando era uma menina eu me perguntava, filosoficamente, como seria chegar aos 50 anos. Um dia cheguei lá e não aconteceu coisa alguma. Também me perguntava como seria quando teria seios. Bom, um dia tive seios e tudo bem. Minha mãe tinha 95 anos e estava lúcida e bem de saúde. Mas percebeu que havia chegado a hora de morrer. Ela me disse: ‘agora é iminente minha passagem ao outro mundo. O medo deixou espaço para a curiosidade’”. Na sequência, a atriz fez uma pausa, congelou um gesto com as mãos, olhou para o chão e acrescentou “Uau! Que frase! Bom, eu sinto medo e curiosidade”.

AVÓ OU AMANTE EM ‘ELSA E FRED’:

“Eu já tinha mais de 80 anos quando um dia o diretor Marcos Carnevale me telefonou. Me disse que queria que trabalhasse com ele em um filme de amor. Eu perguntei: ‘estupendo! Vou fazer o papel da avó de quem?’. Aí ele me explicou: ‘não China, não será avó... você será a protagonista dessa história de amor!’”.

A MAGIA DO PALCO:

“Seja mímico, cantor ou ator... o que acontece em cima de um palco é mágico. As pessoas me perguntam se não me canso do teatro, de fazer sempre a mesma coisa. Bom, eu não me canso nunca disso. Ora, eu pergunto para elas: ‘vocês se cansam de beber café com leite todas as manhãs?’. Não. Eu não canso. Estou encantada de fazer o que faço”.

A FALTA DE LÓGICA DO TEATRO:

“No teatro não existe uma lógica. Não há uma fórmula para lotar um teatro. Volta e meia um diretor reúne um ator estupendo e um autor genial e o espetáculo é fantástico. Mas, o teatro pode ficar vazio. É mesmo um mistério”.

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