LEO AVERSA/DIVULGAÇÃO
LEO AVERSA/DIVULGAÇÃO

Marieta Severo estrela 'Incêndios', peça sobre a dolorida descoberta da verdade

Montagem estreia na sexta-feira, 19, no Teatro Faap

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

14 Setembro 2014 | 21h00

Durante quatro anos, Marieta Severo cruzou o Brasil ao lado de Andréa Beltrão com a peça As Centenárias, sucesso absoluto em todas as praças. Apesar de satisfeita com o resultado, Marieta buscava um projeto diferente. “Eu necessitava estar em cena contando uma grande história, de fôlego, sem fragmentações”, disse ela, que encontrou a solução em Incêndios, peça do libanês Wajdi Mouawad, que estreia sexta-feira no Teatro Faap.

Uma mudança radical – se a engenhosidade teatral de As Centenárias provoca gargalhadas, a de Incêndios intriga, surpreende e emociona. Basta conferir o resultado da temporada carioca, encerrada mês passado. “Foi uma experiência única com público”, conta a atriz. “A emoção ficava à flor da pele traduzida por um silêncio avassalador, palpável.”

Incêndios acompanha a trajetória não linear de Nawal (Marieta) que atravessa décadas de uma infindável guerra civil, período em que foi torturada diariamente durante os cinco anos em que passou em uma prisão. Ela vive seus últimos anos em exílio voluntário no Ocidente, onde morre e deixa em testamento uma difícil missão para seu casal de filhos gêmeos Simon (Felipe de Carolis) e Jeanne (Keli de Freitas): encontrar o pai e também um irmão perdido em seu remoto passado no Oriente.

O texto inspirou o filme de mesmo título, dirigido pelo canadense Denis Villeneuve e que concorreu à melhor produção estrangeira do Oscar de 2011. A versão na tela grande, porém, não provoca o mesmo impacto. “O teatro é o meio de expressão ideal para Incêndios”, acredita o diretor da montagem, Aderbal Freire-Filho. “É a ilusão teatral que permite mais liberdade ao entrelaçamento das ações. O cinema mostra as imagens de forma realista. No palco, é preciso imaginar. E, quando isso acontece, as pessoas se envolvem muito mais e se emocionam.”

De fato, o convite ao espectador para desvendar a misteriosa trajetória de Nawal (feito simbolicamente no início da peça, quando um personagem se dirige ao público) é plenamente realizado graças à magia do palco, em que uma simples mudança de luz é entendida (e aceita), por exemplo, como um avanço na história, tanto para o passado como para o futuro.

A montagem brasileira é uma das poucas autorizadas pelo autor e é fruto da persistência do jovem ator Felipe de Carolis. Tudo começou quando ele assistiu ao filme, há três anos. Tocado pela trama, ele fez inúmeros contatos até chegar ao agente de Mouawad, que exigiu um detalhado plano de trabalho. “Até aquele momento, eu só dispunha da intenção de montar a peça com a Marieta e a direção de Aderbal, sem ainda tê-los contatado”, explica Felipe, que elaborou o projeto finalmente aprovado.

Restava conquistar a adesão da atriz e do diretor. “E, se o processo de liberação dos direitos foi demorado, Marieta me respondeu rapidamente, empolgada com a peça e com o desafio imposto pelo papel principal”, lembra-se Felipe. “Essa mulher foi presa, torturada e estuprada na prisão. É sempre muito difícil deparar com um personagem que precisa passar para o público essa situação limite”, afirma a atriz que, ao contrário de produções internacionais, aceitou interpretar Nawal nas três fases da vida, da juventude aos momentos finais, passando por episódios dramáticos, como a adesão à guerrilha, a incessante busca pelo filho perdido e as dificuldades de ser mulher na região.

Essa também foi uma decisão de Aderbal, pois reforça o jogo teatral proposto à plateia de acompanhar as incômodas descobertas feitas pelos gêmeos à medida que desvendam o passado da mãe. “A peça começa quando ela morre e vai retomando o passado dessa família. Em certo momento, ela diz uma frase determinante: ‘Há verdades que não podem ser reveladas, precisam ser descobertas’. E é aí que a história vai se armando”, observa Marieta.

O diretor destaca que a personagem não tem piedade de si mesma, o que a tornaria desinteressante. “A dor dela é trágica, mas não se traduz em lágrimas ou lamentos. Ela é uma mulher que enfrenta o sofrimento”, comenta. “Com isso, o autor faz uma opção pela tragédia mas não a melodramática. Em Incêndios, Mouawad consegue o quase impossível, ou seja, reconquistar a força que a tragédia teve na antiguidade. Poucas peças terão se aproximado tanto do poder de identificação e catarse, algo que o teatro ocidental deve à sua origem grega.”

De fato, no texto de apresentação da peça, o dramaturgo comenta que Incêndios traz três histórias que procuram “seus primórdios, de três destinos que buscam suas origens em uma tentativa de solucionar a equação de suas existências e tentar encontrar, atrás da duna mais escura, a fonte da beleza”.

Com 48 anos de carreira e 30 espetáculos encenados, Marieta Severo não esconde a emoção ao dizer certas falas da peça. “Essa fase de tortura é muito próxima das pessoas da minha geração, pois vivemos isso diretamente durante a ditadura militar”, comenta ela, que dedica o espetáculo a Zuzu Angel, estilista ficou conhecida nacional e internacionalmente não apenas por seu trabalho inovador na moda mas também pela procura pelo filho, Stuart, militante de organizações extremistas, assassinado pelo governo e transformado em desaparecido político. Por fazer denúncias incômodas ao regime, Zuzu morreu em um misterioso acidente de carro, em 1976. “Conheci Zuzu e compartilhei de sua imensa dor.”

A atriz destaca ainda a contemporaneidade de Incêndios que, ao tratar da violência praticada contra cidadãos, aproxima-se da realidade brasileira. “Basta observar fatos cotidianos para descobrirmos que vivemos hoje uma guerra civil não declarada.”

SERVIÇO

INCÊNDIOS

Teatro Faap. Rua Alagoas, 903. 6ª e sábado, 21h. Domingo, 17h. R$ 60/R$ 90. Até 14/12. Estreia 19/9.


ANÁLISE

Filme com amor e política concorreu ao Oscar

Luiz Carlos Merten - Crítico

Há um determinismo do acaso no cinema do canadense Denis Villeneuve. É o diretor que adaptou Incêndios para o cinema. Nada mais aparentemente contraditório do que ‘determinismo’ e ‘acaso’. Mas a verdade é que as coisas mais díspares vão ocorrendo nos filmes dele. Os personagens envolvem-se em situações geradas pelo acaso e aí você vê que existem coincidências nesses acasos que propiciam o determinismo. As coisas teriam de ocorrer.

É um diretor – um autor – obcecado pela ideia de que as aparências enganam, que as coisas e pessoas nunca são exatamente como pensamos. A garota de Redemoinho parece fútil, e talvez seja, mas rapidamente, em questão de dias, tem de decidir se faz um aborto, atropela (e mata) um homem e conhece outro que a leva a repensar sua vida. Os irmãos de Incêndios – um casal – descobrem que a mãe, ao morrer, lhes deixou duas cartas para serem entregues ao pai e ao irmão. Eles foram criados para acreditar que o pai estava morto e nunca souberam das existência desse irmão.

Reagem diferentemente à missão – entregar as cartas. A filha quer cumprir o desejo materno. O filho reluta, teme as consequências que isso poderá acarretar para a irmã e ele. Segue-se uma narrativa em dois tempos. O espectador segue os irmãos no presente e, no passado, descobre quem foi essa mãe e o que fez. O filme foi indicado para o Oscar de melhor produção estrangeira, em língua não inglesa. Representava o Canadá. Como Fernanda Montenegro em Central Station/Central do Brasil, de Walter Salles, Lubna Azabal, que faz o papel, também poderia ter indicada para a estatueta de melhor atriz. Cria uma personagem apaixonada, cheia de nuances. O filme tem um texto forte – adaptado da peça de Wajdi Mouawad –, mas é provável que o espectador que já viu Incêndios na tela descubra outro Incêndios no palco. Não são só as diferenças de tom e mídia. Villeneuve aposta em soluções melodramáticas e folhetinescas para o desfecho do filme.

Talvez tenha sido esse final – de ação? – que lhe tenha aberto as portas de Hollywood. Villeneuve fez, na sequência, Prisoners/Os Suspeitos e O Homem Duplicado, que adaptou do livro de José Saramago. Os Suspeitos mostra Jake Gyllenhaal como policial que tenta localizar duas garotas que foram sequestradas. Hugh Jackman é o pai que, considerando a polícia inoperante, resolve fazer uma caçada por conta própria. Ele libera um lado sombrio de sua personalidade, transgride a lei, faz coisas terríveis. É como se fosse outro homem (um monstro?). Em O Homem Duplicado, Gyllenhaal (de novo) descobre que tem um duplo. Fica obcecado por ele e se envolve em situações rocambolescas que também envolvem vida e morte.


Redemoinho possui uma estética que pode evocar a publicidade. Tudo muito moderno, clean. O Homem Duplicado retoma essa estética e cria um mundo meio desumanizado. Incêndios é de outra natureza. Em busca dessa mãe que lhes escapa, o casal de gêmeos vai para o Oriente Médio, um lugar explosivo. Ocorrem alguns incêndios, mas o do título refere-se à destruição e redescoberta da mãe. Não é uma jornada de redenção, mas uma viagem que, como teme o filho, leva a descobertas muito duras. Os Suspeitos contrapõe à casa de classe média, que poderia ser clean, a casa em ruínas que abriga a tortura. O próprio Villeneuve, embora talentoso, sugere um homem duplicado, um autor meio esquizofrênico que se divide seguindo as histórias que conta. Um estilista sem estilo, ou à procura de um, como seus personagens em busca de identidade, num jogo de máscaras.

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