Marco Nanini interpreta um prisioneiro que se confunde com Oscar Wilde

Ator vai encenar 'Beije Minha Lápide', com direção de Felipe Hirsch e com estreia marcada para o dia 29 de agosto, no Rio

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

03 de agosto de 2014 | 07h00

RIO - De tanto receber beijos, cuja acidez da saliva provocava deterioração de sua estrutura, a lápide do escritor britânico Oscar Wilde (1854-1900), no labiríntico cemitério de celebridades de Paris, o Père Lachaise, foi isolada por uma proteção de vidro. Apesar da intenção preventiva, a atitude gerou revolta dos fãs do escritor, a ponto de um deles, chamado Bala, ter quebrado a barreira, o que lhe causou a prisão.

A primeira parte dessa história (o envelopamento vítreo do jazigo de Wilde) é verdadeira, mas Bala é um personagem fictício e sua passagem pela prisão, ironicamente fechado em uma redoma de vidro, é tema da peça Beije Minha Lápide, que estreia no dia 29 de agosto, no Centro Cultural dos Correios, no Rio. “Ele é um homem fanático pela inteligência e pelo triste destino de Wilde e, por isso, muitas vezes, se confunde com o próprio ídolo”, explica o ator Marco Nanini, que vive o protagonista da peça.

Beije Minha Lápide é fruto de uma profunda admiração de Nanini pela obra de Wilde. “Sempre ambicionei em trazê-lo para o teatro, mas jamais adaptar algum de seus trabalhos ou mesmo interpretar o próprio Wilde. Eu queria algo que traduzisse a sua essência.”

A proteção de vidro no túmulo do escritor foi o ponto de partida e Nanini retomou a parceria com o diretor Felipe Hirsch, com quem participou de montagens memoráveis (Os Solitários, A Morte do Caixeiro Viajante, Pterodáctilos). 

O encenador, no entanto, não pode continuar e o trabalho foi transferido para uma dupla: o dramaturgo Jô Bilac assumiu a construção do texto, enquanto Bel Garcia cuida da direção de atores, que conta ainda com Carolina Pismel, Júlia Marini e Paulo Verlings, da Cia Independente. “Fiquei impressionado com uma montagem dirigida pela Bel e encenada pelo Paulo, Conselho de Classe”, conta Nanini. “Foi o que me deixou confortável a participar dessa nova empreitada.”

A construção do espetáculo foi conjunta, ou seja, participação coletiva – com o texto de Bilac nas mãos, diretora e intérpretes discutiam as cenas, faziam ajustes, propunham modificações e as melhores eram encampadas pelo dramaturgo, que reescrevia e surgia no dia seguinte com uma nova proposta. “Em praticamente um mês, definimos o texto ao mesmo tempo em que as cenas eram montadas”, conta Bel.

Preso em sua cela de vidro, Bala desenvolve uma relação especial com as únicas três pessoas com quem convive: o carcereiro Tommy, sua filha Ingrid e a advogada Roberta. “Entre eles, acontece um relacionamento muito íntimo e, às vezes, muito dolorido”, comenta Nanini.

De fato, enquanto encarcerado, Bala escreve um texto que pretende presentear a filha. Por proteção, pede a Tommy, com quem criou uma amizade ambígua e erotizada, que guarde os originais. Mas, no momento da entrega do presente, o material sumiu. Bala sabe que Tommy surrupiou os papéis – resta saber se com a intenção de vendê-los ou de publicá-los como de sua autoria.

Tal parte da trama se assemelha a uma das mais importantes obras de Oscar Wilde, De Profundis. Trata-se, na verdade, de uma longa carta de amor, escrita durante sua permanência na prisão. Em 1895, ele foi condenado a dois anos encarcerado sob a acusação de indecência grave, considerado crime na época, por conta de seu escandaloso relacionamento homossexual com o jovem estudante de Oxford, Lord Alfred Douglas.

A carta é um momento raro na carreira de Wilde, habitualmente conhecido por escritos mordazes que deságuam em críticas contundentes. Aqui, ao apresentar um relato da conturbada relação de amor e ódio que manteve com Bosie (apelido de Douglas), Wilde tece importantes reflexões através de uma profunda autoanálise de consciência.

É fechado entre quatro paredes que o brilhante escritor irlandês despe-se de suas máscaras e revive os piores momentos daquele “amor que não ousa dizer o nome”, questionando a paixão, o perdão e a religião. Ao expandir os sentimentos, Wilde apresenta-se como um espectador de sua própria tragédia. E, embora seja um autor habitualmente visto como um consumado esteta, sua obra mantém um diálogo constante com a vida real.

O texto de Beije Minha Lápide, escrito por Jô Bilac, traz diversas passagens das obras de Wilde, especialmente quando destila cultura e refinamento. “Ele sofreu duramente e isso se traduz por meio das palavras”, conta Nanini, que espalha seu talento em longos monólogos, especialmente os que retratam os momentos em que Bala dita seu texto para a advogada Roberta.

Como no seguinte trecho, em que o personagem dita falas em sinapses alucinadas, como se estivesse chacoalhado por um maremoto interno: “Um picador de gelo / Dois pontos paralelos / um em cada lado do crânio / um soquete / mão firme / um golpe decisivo / martela o picador de gelo / no crânio / dentro / do crânio / como um milk-shake / de um lado para o outro / o picador de gelo corta / rompe as conexões entre os lobos frontais e o resto do cérebro / o cérebro / Lobotomizado”.

No próximo trecho, é feita uma referência a Frances Farmer (1913-1970), atriz hollywoodiana de rara beleza, mas que se tornou mais conhecida fora das telas, especialmente pelo seu internamento compulsivo de seis anos em um hospital psiquiátrico, onde teria sido lobotomizada.

Esse clima de sufocamento será cuidadosamente retratado pelo cenário, criado por Daniela Thomas, que já se tornou tradicional colaboradora das montagens de Nanini. As quatro paredes da redoma de vidro serão utilizadas também como tela para a projeção feita por quatro aparelhos diferentes. Outro fiel colaborador, Beto Bruel, será o encarregado da iluminação, cujo principal objetivo será detalhar e até acentuar a sensação de confinamento. Finalmente, a trilha sonora será especialmente composta por Rafael Rocha.

A produção do espetáculo está a cargo da Pequena Central, centro criativo mantido por Nanini e Fernando Libonati, responsável também pelo Instituto Galpão Gamboa, precioso espaço montado no Rio, criado inicialmente para receber ensaios de peças e que hoje auxilia na capacitação de moradores daquela região.

Entrevista

Jô Bilac - Dramaturgo

‘Bala veio da simbiose entre Nanini e Wilde’

Marco Nanini disse que não queria interpretar Oscar Wilde tampouco algum personagem criado por ele. Assim, como foi criar o protagonista Bala? 

Fiquei pensando no atravessamento do discurso de Wilde com o tempo, a força que tem até hoje. Bala veio como diálogo do meu encontro com Wilde e Nanini, a simbiose. 

Até que ponto De Profundis foi uma fonte de inspiração?

De Profundis revela um Wilde redimensionado pela prisão, distante da vida de luxo e sucesso que tinha até então, virando uma chave. Ele se redimensiona, e esse movimento da percepção da vida e seu paradoxo com a morte (em sentido amplificado) me interessa. 

Como foi a experiência coletiva de criar o espetáculo?

Sempre procurei preservar minha autonomia artística, e isso me ajudou a poder escolher com quem trabalho. Teatro é fascinante por ser o espelho da efemeridade da vida. / U.B.

Espaço recebe ensaios e ajuda na formação

Projeto de Nanini e do sócio Fernando Libonati, Instituto Galpão Gamboa realiza projetos de diferentes áreas culturais

Disposto a encontrar um espaço onde pudesse ensaiar sem preocupações com horários, Marco Nanini e seu sócio na produtora Pequena Central, Fernando Libonati, encontraram, em 2007, um belo lugar na zona portuária do Rio, na Gamboa. Antiga dependência de uma pequena indústria têxtil, o espaço caiu como uma luva, mas logo se revelou capaz de realizar maiores ambições.

“Como o galpão era muito grande, resolvemos ocupá-lo também com algo que motivasse uma integração social com a região”, conta Nanini que, empolgado, criou, com Libonati, o Instituto Galpão Gamboa, hoje um centro singular que, além de abrir ensaios de novas produções, também é ponto de encontro dos moradores em atividades gratuitas ligadas à cultura e também ao esporte e educação. Assim, enquanto Nanini ensaia no teatro as cenas de Beije Minha Lápide, o edifício é ocupado por aulas de lutas como Muay thai e Jiu-jítsu, além de dança, ioga e, claro, teatro – um ateliê de figurinos capacita novos profissionais para a função.

Como espaço teatral, o Instituto estreou em 2010, quando recebeu a primeira exibição de Pterodátilos, montagem dirigida por Felipe Hirsch e encenada por Nanini e Mariana Lima. O sucesso motivou Nanini e Libonati a não apenas iniciar uma série de novas apresentações, como também variar criando mostras de danças e artes cênicas, além de abrigar shows de música popular.

Outro destaque do instituto é permitir a aproximação de espetáculos que habitualmente são montados em espaços mais distantes, nem sempre acessíveis para os moradores da Gamboa. Assim, em novembro, começa a 4ª edição do Gamboavista, projeto de ocupação contínua com a apresentação de grandes peças com preços populares. São 14 diferentes peças, além de três shows que serão apresentados até abril do próximo ano.

Apesar de consolidado como projeto cultural, o Instituto Galpão Gamboa ainda sofre para garantir subsídios governamentais e privados. Com um orçamento em torno de R$ 1,5 milhão por ano (boa parte bancada diretamente por Nanini), o instituto só consegue executar novos planos quando ganha editais ou utiliza leis de incentivo fiscal. “Poderíamos ampliar muito nossa variação de projetos se conseguíssemos mais apoio”, conta Libonati. / U.B. 

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