Gabriel Wickbold/ Divulgação
Gabriel Wickbold/ Divulgação

Leona Cavalli e José Rubens Chachá vivem 'Frida y Diego'

Texto de Maria Adelaide Amaral aborda a vida conjunta dos artistas

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

07 de outubro de 2014 | 03h00

Em setembro de 1985, o ator José Rubens Chachá passeava pelo México. Na mesma viagem em que viu, de perto, a obra de Diego Rivera, ele vivenciou o terremoto que atingiu 8,1 graus na escala Richter, destruindo, parcialmente, a Cidade do México. Era, talvez, um prenúncio do mergulho que o ator faria, anos depois, na vida intensa e na obra do artista. Ao lado da atriz Leona Cavalli, ele dá vida ao mais célebre casal mexicano em Frida y Diego, peça que estreia neste sábado, no Teatro Raul Cortez. 

A ideia inicial do diretor Eduardo Figueiredo, que concebeu o espetáculo, era retratar apenas Frida Kahlo. “Pensei nela porque queria fazer uma peça que falasse do universo feminino, mas com um toque um pouco mais profundo”, diz. No entanto, ao encomendar o texto a Maria Adelaide Amaral, descobriu a relevância de Rivera nas vidas pessoal e profissional de Frida. “É impossível dissociá-los”, diz a dramaturga. “A parte mais significativa da obra dela é inspirada pela relação que eles tiveram.”

Adelaide foi contatada em dezembro de 2012, quando, coincidentemente, acabara de voltar do México, em uma viagem dedicada à visita dos locais relacionados à história de Frida. Ela aceitou a encomenda com a condição de entregá-la após o término da novela Sangue Bom, que se aproximava da estreia. Durante este período, gestou – como a própria diz – a peça, lendo biografias sobre ambos e ouvindo muitos boleros mexicanos. “Ler correspondências é fundamental”, diz. “É por meio das cartas que você fica sabendo de coisas fundamentais para o texto. A correspondência me dá uma essência mais intrínseca do personagem.”

O enredo parte de 1940, quando, após ser liberada da prisão, Frida viaja do México a San Francisco, na Califórnia, para reencontrar Diego. É nesta ocasião que eles retomam os momentos importantes de sua relação, acertando contas e discutindo as mágoas recíprocas – entre elas, as únicas traições que realmente abalaram a vida de ambos: quando Frida se envolve com Leon Trotski e Diego com Cristina, irmã da artista. A ideia é mostrar o casal como humano, não como ícones. “A peça mata a sede de quem conhece a história deles, mas nunca olhou essa relação pela fechadura”, define Chachá.

A encenação segue até 1953, quando, no ano anterior ao de sua morte, Frida é homenageada com a primeira exposição de suas obras no México. O momento foi marcante porque, na impossibilidade de andar, a artista fez questão de estar presente, chegando em uma maca e recebendo admiradores em uma cama.

Essenciais nesta montagem, as músicas que integram a trilha foram indicadas já no texto. Segundo Adelaide, a trilha não tem apenas a ver com as cenas, mas com o estado de espírito da dramaturga no momento da escrita. Executadas ao vivo, as músicas casam baixo, banjo, acordeom e violão e ajudam a segurar a encenação, principalmente nos momentos em que os atores ficam ausentes para fazer trocas de figurino.

Como adiantou o Estado, era Lucélia Santos quem, originalmente, viveria Frida. No entanto, ela abandonou o projeto para participar do quadro Dança dos Famosos, do programa Domingão do Faustão. Leona, então, assumiu o papel. “Uma das coisas que me encantaram no texto foi a possibilidade de trazer a cena para a atualidade”, diz a atriz, que vê, na artista, um espírito de revolução necessário no mundo de hoje.

Tanto Leona quanto Chachá já tinham interpretado personagens reais antes. Foi ela uma das primeiras Cacildas de Zé Celso e ele deu vida a Oswald de Andrade. “Fazer personagens reais pode parecer limitador, mas é o contrário”, diz o ator. “Mergulhar na obra e encontrar, no fundo, o que é esse ser humano é muito inspirador.”

ENTREVISTA - Maria Adelaide Amaral

Você já escreveu textos sobre figuras reais, como Coco Chanel e Dercy Gonçalves. Como lida com a relação entre ficção e realidade nesse tipo de dramaturgia?

Existe o aspecto da criação, que envolve uma leitura particular. Eu não sou historiadora, sou dramaturga. Mesmo escrevendo sobre pessoas reais, o texto é permeado pelo meu olhar, sentimento, vocabulário. Depois de pesquisar, fico impregnada do personagem e é como se eu apenas desse voz a ele.

Em sua história profissional, há textos para teatro e para diversos formatos dentro da televisão. O que você pode fazer no palco que não pode fazer na TV?

Na televisão eu posso fazer épicos com um grande número de personagens e figurantes. Mas o palco é mágico, comporta qualquer coisa. No texto, o teatro me permite ser hermética. É um processo artesanal em que cada espetáculo é diferente porque o público muda. É um espaço tão sagrado quanto o de uma igreja.

FRIDA Y DIEGO

Teatro Raul Cortez.Rua Plínio Barreto, 285, 3254-1631. 6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 60/ R$ 80. Até 14/12. Estreia sábado.

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