Juca de Oliveira vive seis personagens de 'Rei Lear'

Ator está em monólogo desafiador que estreia na sexta-feira, 18, com direção de Elias Andreato

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

15 de julho de 2014 | 02h00

Um encontro fortuito resultou em um maravilhoso desafio. Há alguns meses, o ator, diretor e dramaturgo Juca de Oliveira prestigiou um debate do poeta Geraldo Carneiro. Na conversa, Juca confessou o desejo de interpretar Falstaff ou Lear, dois dos mais notórios personagens criados por William Shakespeare. Carneiro respondeu com um desafio: que tal viver seis personagens de Rei Lear em um monólogo? O ator topou e entra em cena, no Teatro Eva Herz, a partir de sexta-feira, 18.

Considerada a mais trágica das tragédias shakespearianas, Rei Lear é o desafio máximo de qualquer ator. Vaidoso, Lear resolve dividir suas terras entre as filhas, em troca de elogios, que, a caçula, Cordélia, se recusa, por não ser hipócrita. Deserdado pelas outras, Goneril e Regane, Lear enlouquece e, por fim, atinge a sabedoria. Geraldo Carneiro fez uma adaptação inédita, reservando a apenas um ator seis personagens. E, por sugestão do ator, ele encerra o monólogo no momento em que Cordélia se reencontra com Lear.

Aos 79 anos, Juca enfrenta um de seus maiores desafios artísticos, algo tamanho que quase o fez desistir. Mas, sob a direção de Elias Andreato, assumiu a empreitada.

Você representa seis personagens no monólogo. Acredito que um dos principais desafios para distinguir esses personagens é por meio da voz. Como você desenvolveu isso?

O problema da voz não é tão complicado para a caracterização das personagens. O complicado é o esforço vocal. Para se ter uma ideia, as críticas que se fizeram ao Lear ao longo de séculos recaem quase sempre na simultaneidade de duas histórias semelhantes. Gloucester tem dois filhos, Edgar e Edmundo. Edmundo é o filho ingrato, que, à semelhança de Goneril e Regan, trama o assassinato do pai, enquanto Edgar é o filho bom, uma versão de Cordélia, a filha boa. Sabe-se hoje que a introdução da história de Gloucester e seus filhos se deve à necessidade de intervalos para o descanso do ator que representasse Lear, pela extrema solicitação vocal do personagem. Imagine esse problema num monólogo! É uma pedreira. Principalmente porque os atores que representam Lear devem ter aproximadamente a idade de Lear. Mas me apaixonei e precisava fazer. Era uma contribuição minha e o desafio dos desafios. E, claro, não poderia fazer isso sozinho. Hoje não podemos produzir nossos espetáculos sem o apoio de empresas que reconhecem a importância cultural do que fazemos.

Por que você sugeriu a Geraldo Carneiro que o monólogo terminasse justamente no reencontro de Cordélia com Lear? Acredita que o não dito é mais poderoso que o dito?

Quando comecei a trabalhar na ótima tradução e adaptação do Geraldinho, um dos nossos mais inspirados tradutores de Shakespeare, apavorado pelo desafio, saí à caça de gravações de monólogos do Lear, para avaliar as dificuldades que iria enfrentar. Não havia tal monólogo! Nenhum ator fizera antes um monólogo do Lear! Os obstáculos eram tantos, o número de personagens, de cenas, que, a certa altura, apavorado, cancelei o projeto. Mas, ainda assim, continuei buscando uma solução. E, de repente, a luz! Goneril e Regan traem e expulsam o velho pai, tramando sua morte. Cordélia, renegada e expulsa por Lear, vem em seu socorro e o salva. É uma brilhante cena de reconciliação entre pai e filha, a mais bela e comovente da peça, o renascimento da esperança! Claro, o monólogo terminaria aí e ao espectador caberia imaginar o futuro de ambos. Li a cena desse reencontro para o Geraldinho, que aprovou.

Rei Lear trata de um assunto que continua atual: a difícil relação entre pais e filhos. Hoje, casos de patricídio acontecem em números crescentes. Você acredita que o cerne da peça seria justamente essa dificuldade de relação familiar?

É exatamente isso. Apesar da grande complexidade, essa tragédia é sempre caracterizada como “um drama familiar”. Não consigo esquecer de que, quando li Rei Lear pela primeira vez, tive um insight que permanece até hoje: os pais, enquanto vivos, jamais deveriam transferir seus bens para o nome dos filhos. Os bens deveriam ser divididos só após a morte, pelo tabelião. E eu estava desgraçadamente certo, pois todos os dias tomamos conhecimento de uma infinidade de pais que cometeram esse erro, desaconselhado por Shakespeare, que sabe tudo sobre o homem. E todos acabaram na miséria, abandonados pelos filhos, que se apossaram da herança transferida para seus nomes, na expectativa de afeto e gratidão. Sobre isso, escrevi no programa do espetáculo: “Hoje, com a disparada da longevidade, os filhos modernos, clones de Goneril e Regan (as filhas cruéis), expulsam de casa os velhos pais e os encarceram em asilos até a morte. Puro Shakespeare. Puro Rei Lear”. 

As obras de Shakespeare têm um forte aspecto político. Qual seria sua leitura política desse texto no nosso Brasil atual? Que relações podem ser estabelecidas com a realidade?

Como já disse, enxergo em Lear mais a ingratidão filial, o egoísmo e a violência. Nesse sentido, ele é atualíssimo. Outras tragédias nos dão leituras mais políticas que Lear, como por exemplo Júlio Cesar, Ricardo III, Hamlet. Veja o caso do ótimo seriado de TV House of Cards. Kevin Spacey, o protagonista, faz o vice-presidente dos Estados Unidos, um apaixonante psicopata. Pois Kevin Spacey confessa ter se inspirado em Ricardo III

Esse monólogo é o maior desafio de sua carreira?

Shakespeare é o sonho de qualquer ator, mas sempre um enorme desafio. Já tive o privilégio e a proteção das musas de ter enfrentado três desses desafios, realmente os maiores: Júlio César, em 1966; Ricardo III, em 1975; e Othelo, em 1982. Minha primeira peça como autor, Baixa Sociedade, em 1975, foi outro descomunal desafio, pois não tinha a menor suspeita do que iria eventualmente acontecer. Como o público receberia esse espetáculo? Eu teria jeito para escrever peças de teatro? Mais uma vez, Melpômene e Thalia, as musas que reverencio, me protegeram e o espetáculo se tornou um enorme sucesso, seguido pelo sucesso das peças que vieram depois.

Você também é dramaturgo - de que maneira Shakespeare, especificamente, influencia sua escrita teatral?

A primeira grande influência que sofri de Shakespeare foi humildade e consciência de minhas limitações. George Polti, crítico teatral francês, escreveu, em 1916, As 36 Situações Dramáticas, listando todas as possibilidades humanas de conflito e drama. Amor, ódio, traição, despeito, ressentimento, ciúme, ambição, inveja e todo o resto da lista. Ele escreveu sobre tudo. Meus queridos e saudosos professores Paulo Mendonça e Alberto D’Aversa, da Escola de Arte Dramática, ambos diziam uma frase mais ou menos assim: “Se você tiver alguma dúvida sobre a natureza humana, consulte Shakespeare”. É exatamente isso. Quem escreve teatro não lê Shakespeare, consulta Shakespeare. Sempre. E é exatamente isso que eu faço.

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