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Jovens dão vida às tensões de Qorpo Santo

Em um beco da Rua Belmiro Braga, a Santa Cia. apresenta sua primeira peça, 'As Relações Naturais'

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

01 de outubro de 2014 | 11h32

Para montar o espetáculo Barafonda, em 2012, a Companhia São Jorge de Variedades precisava de atores que compusessem um coro. Convocaram, então, um grupo de jovens, todos alunos da Escola Superior de Artes Célia Helena. No decorrer das temporadas, eles mantinham conversas constantes com a atriz Paula Klein, por quem nutriram admiração. Com o fim das apresentações, veio a vontade de criar novos trabalhos: foi assim que Carol Portella, Luisa Fischer, Marita Prado e Roberson Lima fundaram a Santa Companhia, que apresenta nesta quarta-feira, 1, As Relações Naturais, seu espetáculo de estreia, sob a direção de Paula.

No início, os jovens tinham vontade de fazer um espetáculo que tivesse relação com a obra da poetisa goiana Cora Coralina. “Inscrevemos esse projeto em vários editais, mas, graças a Deus, não pegamos”, diz, rindo, a diretora. E justifica: “Cora Coralina é coisa para o Rogério Tarifa dirigir, ele faria muito bem”. Ela faz referência a seu colega na São Jorge, que tem habilidade para encenar peças com temáticas mais leves e poéticas. Paula logo jogou outra ideia na roda. “Sugeri que eles encenassem um texto do Qorpo Santo. Tem mais a ver comigo.” Com o novo projeto em mãos, conseguiram R$ 50 mil já no primeiro edital que tentaram, o do Proac Primeiras Obras.

A atriz e diretora teve um contato intenso com a obra de José Joaquim de Campos Leão (1829 - 1883) - nome de batismo de Santo - no fim dos anos 1990, quando a São Jorge fez uma incursão no trabalho do gaúcho: os integrantes da companhia leram todos os textos do dramaturgo para, enfim, montar Um Credor da Fazenda Nacional, peça que apresentaram no Festival de Teatro de Curitiba em 1999. “Quando montamos o Credor fazia tempo que o Qorpo Santo não era montado”, lembra. Com seus novos pupilos, Paula repetiu o processo que vivenciou na São Jorge: apresentou obras do autor ao grupo e os integrantes é que decidiram o texto a ser encenado. 

Para a diretora, o espetáculo é, também, uma homenagem à São Jorge e à Boa Companhia, de Campinas, que, conseguiu a proeza de montar um texto de Santo em palco italiano. “Em Banqete, o grupo pegou muito bem o espírito da obra e o manteve mesmo em uma apresentação mais formal.”

Assim como outras peças do dramaturgo, As Relações Naturais não tem um enredo tradicional, organizado, cronológico. A poesia do texto contrasta com o seu teor pesado em cenas fragmentadas: aqui, Santo escancara as relações humanas e suas tensões, mesclando beleza à violência, muitas vezes com um toque cômico. Apesar de mostrar fragilidades inerentes à inexperiência, o elenco mantém o espírito da peça. 

O cenário escolhido pela Santa Companhia dialoga com o estilo do dramaturgo. O espetáculo começa em uma praça na esquina das ruas Belmiro Braga e Inácio Pereira da Rocha, na Vila Madalena. De lá, os atores convidam o público a passar por um portão e a entrar em um beco comprido, inteiramente decorado com arte urbana. No decorrer da peça, o elenco caminha até o fim do local e faz o público passar por um corredor de fogueiras. Quanto mais dentro do beco, mais violentas são as cenas.

Segundo Paula, um dos pontos cruciais da dramaturgia de Santo é que os textos não são completos. “Ele deixa espaço para você imaginar coisas”, explica. Ela cita uma cena cotidiana, em que o dramaturgo narrava a relação entre uma mãe e suas filhas. “A passagem mostrava uma tortura, algo que eu não conseguia compreender. Fomos improvisando e, ainda assim, o negócio não andava.” Ela preencheu as lacunas deixadas por Santo com imagens que iam surgindo em sua mente. Assim, a preocupação com a plástica tornou-se latente na encenação. A inspiração veio dos artistas Arthur Bispo do Rosário e Cao Guimarães. “O Bispo aproveita o que está disponível. Ele pega os restos, o que está desmanchado, e reconstrói o mundo. E o Qorpo Santo fez isso: dos sofrimentos da própria vida, ele construiu dramaturgias. O Cao segue a mesma linha, reaproveitando os objetos.”

Em cartaz com Fausto, no Sesc Pompeia, Paula fez seu primeiro trabalho como diretora ao mesmo tempo em que era dirigida por Georgette Fadel e Claudia Schapira, no clássico de Goethe. E as diretoras acabaram tendo influência na forma com que Paula comandou a Santa Companhia. “Eu trabalhei muito tempo com a Georgette, que atua para mostrar ao ator como a cena deve ser. E agora, com a Schapira, eu passei a me valer muito do jeito dela, da calma de explicar verbalmente para o elenco. Como diretora, variei nesses métodos.” 

AS RELAÇÕES NATURAIS

Beco da Vila Madalena. Rua Belmiro Braga, s/nº (ao lado do Centro Cultural Rio Verde), 97216-1061. 4ª, 20h30. Grátis. Até 26/11.

Bem imaterial

O Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo aprovou ontem o registro de 22 grupos de teatro como patrimônio cultural imaterial.

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