CACÁ BERNARDES/DIVULGAÇÃO
CACÁ BERNARDES/DIVULGAÇÃO

Folias conta a história de Joana D'Arc

Com base em texto de Timochenco Wehbi, peça tem misto de referências

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

06 Dezembro 2014 | 03h00

Pelo menos desde 2013, o grupo Folias se interessa em contar a história de figuras que, de alguma forma, não se encaixam em suas realidades. Começou com Folias Galileu, em que a companhia abordava o dilema ético do cientista Galileu Galilei. Depois veio Medeia: 1 Verbo, adaptação da tragédia grega de Eurípedes sobre a mulher que mata os filhos para se vingar do marido. A trilogia se encerra com Folias D’Arc, peça que conta a história da guerreira francesa Joana D’Arc e estreia hoje no Galpão do Folias, em Santa Cecília.

Entre os diversos textos sobre Joana lidos pelo grupo, o do paulista Timochenco Wehbi (1943-1986) se destacou para o diretor Dagoberto Feliz. “Ele aproxima Joana do povo brasileiro”, diz. “Ela fala como nós, não como uma francesa ou uma santa. O enredo se passa em uma feira nordestina, e é muito baseado na literatura de cordel.”

O toque nordestino é uma das referências do espetáculo, que mescla diversas ideias para contar a saga de Joana de maneira crítica. Além do texto poético e rimado, os atores encarnam bufões, ganhando licença poética para a zombaria. “A eles são permitidas algumas atitudes proibidas a meros humanos. Cria-se um desrespeito à santidade que me interessa”, conta Feliz. Isso fica explícito logo nas cenas iniciais, quando Joana aparece como estátua e os bufões vão até ela e, em meio a gargalhadas, tocam seus seios e revelam seu sexo.

A graça vem na esteira da banalização do mito. Percebendo o uso da imagem de Joana pelos rivais Nicolas Sarkozy e Marine Le Pen nas eleições francesas de 2012, o diretor quis retratar uma perda de valor da figura. “Ela foi usada como símbolo de duas campanhas que eram opostas. É uma apropriação indébita”, analisa. O figurino apoia a crítica, quando a personagem aparece vestida com os conhecidos – e ultra banalizados – motivos de Romero Britto.

Com trilha sonora executada ao vivo com piano e percussão, Feliz traz à tona um gênero de musical que era mais frequente entre 1960 e 1970. “Tem mais a ver com o teatro alemão do que com o conceito da Broadway”, afirma, explicando que, nesse modelo, as canções aparecem como coadjuvantes, sempre a serviço do texto. Irônica e divertida, a trilha faz mesclas como Deixa Isso pra Lá, de Jair Rodrigues, com o hino nacional da França.

FOLIAS D’ARC

Galpão do Folias. Rua Ana Cintra, 213, metrô Santa Cecília, 3361-2223. Sáb. e dom., 17h. R$ 10/R$ 40. Até 14/12.

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