Festival Internacional de Teatro de Brasília chega à sua 15ª edição

Evento deste ano terá menos peças

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

18 de agosto de 2014 | 19h08

Entre os benefícios e malefícios deste atípico ano de 2014, uma reclamação é constante: diversos projetos foram adiados ou sofreram outras alterações em função da Copa do Mundo e das eleições que se aproximam. Pelo menos é nesta razão que crê Guilherme Reis para explicar a diminuição do Cena Contemporânea - Festival Internacional de Teatro de Brasília, cuja 15.ª edição começa hoje. "Vínhamos trabalhando com uma média de 35 peças", diz o curador e diretor do evento. "Nesta edição, temos 23."

Segundo ele, o Cena teve, nos últimos três anos, um importante patrocínio do governo local, o que não se repete agora. "Os parceiros que nos apoiam há mais tempo continuam presentes, mas captamos menos do que gostaríamos e precisaríamos", lamenta, acrescentando que, com o Teatro Nacional Cláudio Santoro fechado para reforma, a falta de palcos também se tornou um problema.

Assim, Reis teve de abdicar de uma programação paralela que, crescente nos últimos anos, envolvia outras vertentes, como música, circo e videoarte. Também optou por sacrificar parte da programação nacional, dando preferência às montagens locais - de grupos brasilienses - e internacionais. O público do festival não poderá, então, ver espetáculos que estavam nos planos iniciais - como Cais ou Da Indiferença das Embarcações e As Estrelas Cadentes do Meu Céu São Feitas de Bombas do Inimigo, já conhecidas entre os paulistanos. Mas não fica completamente órfão de um panorama brasileiro: é a carioca Companhia dos Atores que abre a programação, às 21h, com Conselho de Classe. Criada para comemorar os 25 anos do grupo, a peça teve três indicações ao Prêmio Shell do Rio em 2013 - de melhor direção, texto e cenário. Venceu no último quesito. No enredo, uma reunião de professoras (todas interpretadas por homens, mas de maneira nada caricata) com um novo diretor revela os dilemas de uma escola pública.

De alguma maneira, Conselho... dialoga com 'identidade', 'envelhecimento' e 'utopia' - os três temas que embasaram a curadoria na escolha dos espetáculos. "Fui selecionando as peças e senti que estes temas prevaleciam”, diz Reis. “Isso influenciou na escolha do restante da programação."

Esta tônica justifica, por exemplo, a presença de quatro espetáculos com textos do italiano Luigi Pirandello (1867-1936). Percebendo que o dramaturgo tinha presença forte, ele resolveu incluir a trilogia do paraense Cacá Carvalho, com as peças O Homem com a Flor na Boca, A Poltrona Escura e umnenhumcemmil.

Vem, também, de um texto de Pirandello um dos destaques da programação internacional. La Función por Hacer, da espanhola Kamikaze Producciones, é uma livre adaptação de Seis Personagens à Procura de um Autor. Mantendo as características originais da obra e, ao mesmo tempo, trazendo-a para o contexto atual, o grupo aborda temas puramente humanos, como amor, sexo, ciúme, loucura e culpa. Com estreia em 2009, o espetáculo rendeu à trupe vários prêmios na Espanha, além de ter sido eleito, por um crítico do diário El País, como uma das melhores montagens dos últimos 20 anos. Com apenas duas sessões no festival, a peça já tem seus ingressos esgotados.

Tomorrow é outro destaque forasteiro. Em parceria com o Cena Contemporânea, Festival de Brighton e o espaço artístico escocês Tramway, o grupo Vanishing Point, de Glasgow, fala sobre envelhecer. Na dramaturgia de Pamela Carter, o assunto surge em forma de metáfora: subitamente, um jovem se encontra em um lugar familiar, mas assustador. Lá, ele é conhecido por todas as pessoas, deve obedecer a ordens estranhas e não tem liberdade para sair. A ideia é questionar o tratamento que as gerações mais novas dão às mais velhas. A peça resulta de uma oficina ministrada pelo diretor Matthew Lenton na última edição do Cena.

Entre as montagens internacionais, apenas uma não é europeia. Othelo, de Shakespeare, ganhou adaptação do argentino Gabriel Chame Buendía e é uma grande aposta do curador. "A peça é encantadora porque é extremamente simples. É feita por um grupo de clowns, com inventividade e um jogo absolutamente aberto de atuação. Você vê a coisa acontecendo na sua frente, a compreensão do público é fácil. E eu acho que Shakespeare adoraria ver isso", diz Reis.

A dança está representada no festival pelo encontro do coreógrafo francês Jérôme Bel com o bailarino tailandês Pichet Klunchun. No dueto de nome bem óbvio, Pichet Klunchun and Myself, que esteve em São Paulo na semana passada, Bel conversa com Klunchun. O assunto, claro, é a dança, mas o bate-papo aborda questões que envolvem o interculturalismo, a globalização e o eurocentrismo. Klunchun faz demonstrações de Khon, dança clássica tailandesa.

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