Elina Yiounanli/Divulgação
Elina Yiounanli/Divulgação

Festival de teatro chileno recebe espetáculos de 27 países

Brasil participa com 'Patronato 999 Metros', da companhia Teatro da Vertigem; programação se espalhará por Santiago em janeiro

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 2014 | 03h00

Se em fevereiro boa parte dos brasileiros desce para o litoral para curtir o carnaval, no Chile a festa começa um mês antes. “Em janeiro, Santiago se transforma”, diz Carmen Romero, diretora da Fundação Teatro a Mil, instituição responsável pelo festival Santiago a Mil, que começa no sábado e mantém atrações até o fim do mês na capital e em outras regiões do país andino. 

Segundo ela, a movimentação nas ruas lembra a festa brasileira, não apenas porque a programação do Santiago a Mil é intensa em espaços públicos, mas porque é em janeiro que a cidade tem uma agenda farta em festivais: em paralelo, ocorrem o Festival Internacional Santiago Off, o Festival de Teatro Infantil de la Reina, o Enterpola (Encontro de Teatro Popular Latino-americano e o MFest, de música eletrônica.

Um dos mais importantes festivais da América Latina, o Santiago a Mil chega à sua 22ª edição com 92 espetáculos vindos de 27 países de todos os continentes. Com uma curadoria coletiva, que tem representante fora do Chile, o evento tem a preocupação de unir encenadores latinos emergentes e grandes nomes de outros países. “Não é apenas uma mostra de espetáculos. Queremos trocar conhecimento e criar vínculo com os artistas”, diz Carmen.

Como adiantou o Estado, o Teatro da Vertigem é a única companhia brasileira a integrar a programação do festival. Sob direção de Antônio Araújo, o grupo apresenta Patronato 999 Metros entre 14 e 18 de janeiro. O espetáculo é uma adaptação de Bom Retiro 958 Metros, que estreou em 2012, em São Paulo. Na montagem, o grupo circulava pelo bairro do Bom Retiro - conhecido por suas lojas e confecções -, passando por galerias e por um teatro abandonado para fazer críticas, como à escravidão de estrangeiros na indústria da moda.

Na versão chilena, a companhia vai circular pelo bairro do Patronato, que tem características similares à região paulistana, apesar das diferenças. Além de ter uma vocação têxtil, o local viveu um movimento recente de migração coreana e é, também, berço de uma grande comunidade palestina. Para a adaptação da peça, Araújo circulou pelo local e fez pesquisas em livros e em uma tese de doutorado sobre o bairro.

Na mesma linha, Remote Santiago provoca reflexões sobre a cidade. Dirigido e concebido por Stefan Kaegi, o espetáculo estreou em Berlim, em maio de 2013, e, após passar por cidades como Lisboa, Avignon e Viena, veio a São Paulo em novembro do mesmo ano. Diferente de uma peça convencional, o trabalho é classificado como um “áudio tour teatral”: o público usa fones de ouvido e recebe instruções de um voz mecânica, que lembra as de GPS. No decorrer da peça, os espectadores andam pela cidade e, por vezes, tornam-se personagens.

Inovação. Além de aprimorar a relação de diretores internacionais, a linha curatorial do Santiago a Mil preza por espetáculos de linguagem inovadora e que possam estabelecer uma relação intercultural com o Chile. Nesse contexto, Carmen destaca I Am Mapuche. “Estamos muito orgulhosos deste espetáculo. É um grande conquista nossa”, diz. No trabalho, o coreógrafo samoano Lemi Ponifasio fez uma residência com 12 artistas mapuches, povo indígena do centro-sul chileno e do sudoeste argentino. O resultado é um espetáculo de dança sobre a cultura local, mas com viés neozelandês.

No dia da abertura do festival, destaque para Iliad, dirigida pelo grego Stathis Livathinos. Trata-se de uma releitura contemporânea das 24 partes d’A Ilíada. Como resultado de dez meses de experimentações em narrativa e teatro épico, a montagem mostra uma versão mais dinâmica do clássico, com 15 atores se revezando entre os personagens e dois músicos executando a trilha ao vivo, com percussão e música eletrônica.

No mesmo dia se apresenta Tan Dun, responsável pela trilha do longa O Tigre e o Dragão, trabalho pelo qual conquistou um Oscar e um Grammy. Pela primeira vez na América do Sul, o chinês apresenta Nu Shu: The Secret Songs of Women (As Canções Secretas das Mulheres, em tradução livre). Multimídia, o espetáculo usa harpa, orquestra e vídeo para contar histórias de mulheres do povoado de Nu Shu, evidenciando a centenária língua secreta usada exclusivamente por mulheres da região.

Também vista no Brasil, na Bienal Sesc de Dança de Santos, em 2013, What the Body Does Not Remember (O Que o Corpo Não se Lembra, em tradução livre), é um dos pontos altos da programação. Com estreia em 1987, o coreógrafo belga Wim Vandekeybus iniciava sua companhia, a Última Vez. A peça, que foi remontada, é claro, com novo elenco, aborda a atração e a repulsão em níveis diversos: às vezes entre dois bailarinos, às vezes entre dois grupos, às vezes entre o bailarino e a música.

Destaques

Patronato 999 Metros

Adaptação de Bom Retiro 958 Metros, do Teatro da Vertigem. A peça circula pelo bairro do Patronato, abordando questões como a escravidão na indústria da moda.

Iliad

O diretor grego Stathis Livathinos faz uma releitura bem contemporânea das 24 partes de A Ilíada, com dinamismo e música ao vivo.

Nu Shu: The Secret Songs od Women

Responsável pela trilha do longa O Tigre e o Dragão, o chinês Tan Dun vem pela primeira vez à América do Sul e mescla música e vídeo para contar histórias do povoado de Nu Shu.

I Am Mapuche

O coreógrafo samoano Lemi Ponifasio mostra o resultado de uma residência com 12 artistas mapuches, indígenas do Chile e da Argentina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.