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Espetáculo musical conta a história de vida de Wilson Simonal

Espetáculo é polêmico, mas cheio de suingue e carisma

Daniel Schenker - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

13 Janeiro 2015 | 03h00

RIO - O cineasta Elia Kazan recebeu um Oscar honorário em 1999. Na plateia, alguns artistas aplaudiram e outros ficaram em silêncio em sinal de protesto. As reações contrastantes se deveram ao fato de Kazan ter sido acusado de delatar colegas durante o período do macarthismo. A diretora Leni Riefenstahl também dividiu opiniões em relação à sua atitude ética. Responsável por filmes como O Triunfo da Vontade (1934), entrou para a história como cineasta comprometida com o Partido Nazista, o que abreviou sua trajetória profissional. 

No Brasil houve uma célebre figura polêmica: o cantor Wilson Simonal (1938-2000), apontado como delator a serviço da ditadura militar. Esse carimbo arruinou a sua carreira de sucesso. “Acho que o racismo foi um elemento determinante para esse assassinato cultural do Simonal. Se ele fosse branco, metade não teria acontecido. Talvez ele tivesse se recuperado”, afirma Nelson Motta, autor do texto do espetáculo (S’imbora, o Musical - A História de Wilson Simonal) que estreia no dia 16, no Teatro Carlos Gomes, no Rio. A previsão é que a encenação chegue a São Paulo no meio do ano, no Teatro Cetip.


De qualquer maneira, a montagem de Pedro Brício não fecha o foco em torno da controversa faceta política de Simonal. Traz à tona toda a sua jornada, da ascensão à derrocada. O público poderá acompanhar a repercussão alcançada com músicas como Balanço Zona Sul, País Tropical, Meu Limão, meu Limoeiro, Lobo Bobo e Mamãe Passou Açúcar em Mim e o processo de decadência. Desconfiado de seu contador, ele procurou policiais (agentes do Dops) e acabou sendo vinculado à ditadura. Foi, daí em diante, relegado ao esquecimento. 

“Vejo Simonal como alguém de origem muito simples que descobriu um poder e decidiu mostrar que seria possível para um negro pobre virar um rei. O poder deu a ele a sensação de que estava acima do bem e do mal. Ele não teve disciplina e humildade”, avalia Ícaro Silva, que, elogiado anteriormente por participações nos musicais Rock’n Rio e Elis, a Musical (no qual interpretou Jair Rodrigues), foi escolhido para fazer Simonal. Ícaro conquistou o papel após uma concorrida seleção (mais de 1.000 atores mandaram material e 100 foram convocados para audições).

Imperial. Além de Simonal, outro personagem desponta com peso no musical. Trata-se de Carlos Imperial (1935- 1992), que lançou Simonal. Elevado ao status de narrador da história, ele é encarnado pelo ator Thelmo Fernandes. “Simonal queria ser Imperial. Foi criado no Leblon, mas era filho de empregada doméstica. Já Imperial era filho de banqueiro, cafajeste e simpático. O público provavelmente sentirá repugnância e fascínio por ele. O Imperial está merecendo um musical só dele”, observa Motta, que descortinou um efervescente panorama da música brasileira no livro Noites Tropicais e assinou os textos de três musicais: Tim Maia - Vale Tudo, Elis, a Musical e agora S’imbora - A História de Wilson Simonal (os dois últimos em parceria com Patrícia Andrade).

Esse novo musical contribui para a revalorização de Simonal, que vem se dando por intermédio do relançamento dos discos, da realização de projetos como O Baile do Simonal, a cargo de Max de Castro (encarregado dos arranjos da montagem) e Simoninha, filhos do cantor, do aclamado documentário Ninguém Sabe o Duro Que Dei (2009), de Calvito Leal, Claudio Manoel e Micael Langer, e dos livros Simonal: Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga, de Gustavo Alonso, e Nem Vem Que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal, de Ricardo Alexandre. 

Pedro Brício mergulhou na pesquisa sobre Simonal e aprofundou o estudo acerca do musical, um gênero com o qual tem flertado ao longo do tempo por meio de seus textos - A Incrível Confeitaria do Senhor Pellica, Cine-Teatro Limite e Me Salve, Musical. Até então, porém, Brício não tinha se aproximado da estrutura do espetáculo de grande porte. “Não me senti tolhido. As minhas maiores preocupações foram os números musicais, que são o problema e a beleza do musical. Quisemos que os números se tornassem dramaticamente importantes”, sublinha.

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