Em ‘Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos’, as letras contam a história

Espetáculo estreia em São Paulo, no Teatro Faap; leia análise do ator Claudio Botelho e confira entrevista na TV Estadão

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2014 | 02h00

Charles Möeller e Claudio Botelho já transitaram pelos mais diferentes musicais americanos, desde clássicos como O Mágico de Oz até eternamente modernos como Hair. Mas eles nunca esconderam sua paixão por Chico Buarque, o autor brasileiro de teatro musical que mais se dedicou ao gênero desde os anos 1960. “Já havíamos montado Ópera do Malandro, Suburbano Coração e Na Bagunça do Teu Coração, que é uma revista com composições do Chico”, conta Botelho. “Mas queríamos criar algo mais focado nas canções.” Foi quando nasceu Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos, que estreia na sexta-feira, 8, no Teatro Faap.

Não se trata de um recital tampouco de uma apresentação cronológica – Möeller e Botelho decidiram criar uma peça inédita em que os textos são as canções. Uma trupe teatral, vivida pelo próprio Botelho, além de Soraya Ravenle, Malu Rodrigues, Andre Loddi, Estrela Blanco, Felipe Tavolaro, Lilian Valeska e Renata Celidonio, viaja por diversas cidades, apresentando suas peças. 

O chefe do grupo (interpretado por Botelho), já idoso e com a memória comprometida, decide registrar no papel as lembranças que ainda guarda, anotando momentos de sucesso, encontros e desencontros amorosos, cuja harmonia é desestabilizada pela chegada de uma nova integrante (papel de Malu). “Nossa inspiração foram as antigas companhias de teatro, chefiadas normalmente por casais, como Walmor e Cacilda, Odilon e Dulcina, Maria Della Costa e Sandro Polônio, grupos que mambembaram pelo País de ônibus, trem e que certamente colecionaram histórias de glória e traição”, explica Botelho.

Com a história arquitetada, o próximo passo foi alinhavar as canções de Chico – um trabalho nada dificultoso, pois Möeller e Botelho são especialistas na obra buarqueana. Tal conhecimento foi essencial para a descoberta do diálogo entre canções aparentemente tão distintas. “Assim, unimos músicas de espetáculos totalmente não comunicantes, como Roda Viva e Calabar, O Corsário do Rei e O Grande Circo Místico, República dos Assassinos e Para Viver um Grande Amor”, conta Botelho. “O objetivo é mostrar a magnitude dessa obra como exemplo de arte, que resiste mesmo fora do contexto original. Tudo é encenado, somos todos personagens dessa trupe inventada.”

Ele conta que estrutura do musical foi inspirada em uma montagem inglesa, Todas as Peças de Shakespeare em 97 Minutos, criada pelo grupo The Shakespeare Reduced Company. Ali, acontecem encontros improváveis como Hamlet e Lear, Othello e Falstaff, criando uma nova e irreverente peça (o The New York Times classificou-a como mais “impiedosa que as sátiras do Monty Python”), sem deixar de reverenciar o bardo. 

“Com as obras que criou para o teatro musical, Chico se equipara em importância a Stephen Sondheim, um dos mais importantes criadores da Broadway de todos os tempos. Só lamentamos que ele não tenha continuado a criar mais”, comenta Möeller.

A dupla contou com apoio integral de Chico Buarque que, se não palpitou na elaboração do espetáculo, revelou seu contentamento ao acompanhar uma sessão, durante a turnê no Rio de Janeiro. Chico até se surpreendeu com o poder de apuração da dupla – ele não se lembrava, por exemplo, da pouco conhecida canção Invicta, que praticamente estava inédita. “Recuperei uma cópia em videocassete de Suburbano Coração, de 1989, para saber qual era a melodia, pois só dispunha da letra.”

Quem mais participou do processo de criação foi o produtor do compositor, Vinícius França. “Ele sugeriu uma canção que não tínhamos pensado, tema do filme Joana Francesa”, lembra Botelho. “Foi logo incorporada.”

O resultado surpreende o público pela elaboração e criatividade. Com pleno domínio das técnicas teatrais, Möeller criou um cenário expressionista para abrigar pequenas obras-primas cênicas para cada canção, em que a palavra é valorizada. “Como o elenco é predominantemente formado por jovens, o primeiro trabalho foi cada um descobrir a força da letra para só depois se preocupar com a melodia.” As canções foram gravadas em um CD duplo, já à venda pela Biscoito Fino.

Chico revela dom para falar com a voz dos outros

Claudio Botelho

O início da carreira de compositor de Chico Buarque foi muito ligado ao teatro. Ao escrever temas musicais para versos já prontos de Cecília Meirelles (O Romanceiro da Inconfidência) e João Cabral de Mello Neto (Morte e Vida Severina), Chico talvez tenha tido sido contaminado artisticamente pela música cênica, ou, mais precisamente, por falar com uma voz que não a sua própria, mas a de personagens.

Toda a magistral e volumosa obra de Chico Buarque é indubitavelmente ligada a personagens, sejam eles os de seus musicais autorais, sejam eles personagens do cotidiano aos quais o compositor deu voz. 

É interessante notar que, mesmo não escrevendo para a cena, Chico apresentou ao país personagens que são absolutamente teatrais como Pedro Pedreiro, Carolina, O Meu Guri, Pivete, entre outros, além de canções que são em si cenas com começo, meio e fim, como Com Açúcar, Com Afeto; Sem Açúcar; Construção; Feijoada Completa; Deixe a Menina; Cálice; Vai Passar; e diversos outros títulos de canções que não são ligadas a nenhum filme ou peça.

Quando começa a trabalhar caudalosamente para o teatro, o Chico criador de personagens chega a seu ápice da criação. Em Ópera do Malandro, baseado no musical original de Brecht/Weill, Chico consegue recriar no Rio de Janeiro dos anos 40 a situação original da Drei Groshenoper, em que malfeitores e prostitutas da Alemanha de antes da Primeira Guerra Mundial, tornam-se malandros da Lapa carioca na era pré Getúlio Vargas. 

Chico chega ao extremo de recriar em letra a música a mesma história de canções originais como O Dueto do Ciúme, que, na sua versão, torna-se O Meu Amor. Geni dos Piratas, história insólita que remete ao conto Bola de Sebo, de Guy De Maupassant, transforma-se pelas mãos de Chico em Geni e o Zeppelin, canção tão popular no Brasil dos anos 80 que se tornou gíria e até xingamento nas ruas das cidades brasileiras.

Já em Calabar, Chico Buarque de Holanda faz por meio de metáforas uma crítica contumaz ao regime militar então vigente no Brasil (1974), usando para isso uma história passada no período colonial de nossa história. 

Novamente, Chico se desdobra ao dar voz musical inconfundível a personagens como Bárbara e Ana de Amsterdã e cria canções que metaforicamente descrevem cenas de tortura e menções à censura, mas sem mencioná-las diretamente, como Cobra de Vidro, Boi Voador Não Pode e Fortaleza.

O mais significativo na obra de Chico Buarque para o teatro, cinema e televisão, é o fato de que é nesses veículos que o compositor aprofunda seu dom natural de falar pela voz do outro. A canção “buarqueana” (mesmo não feita para teatro ou cinema) quase nunca é auto referente, é uma canção que descreve ou dá voz ao brasileiro comum, ao homem da rua, ao vendedor de um realejo que não mais interessa a ninguém, à moça que fica na janela enquanto a vida passa lá fora, a muitos de nós e de outros diferentes de nós.  

Já quando trabalha as canções num arcabouço dramatúrgico, seja de palco ou filme, Chico leva esta percepção ao mais alto patamar da teatralidade. 

Uma canção em si pode contar uma história completa, como uma pequena peça em atos, como é o caso de Geni e o Zepellin (Malandro); Mar e Lua (da peça Geni); Mambembe (Quando o Carnaval Chegar); Você Vai me Seguir (Calabar); Showbizz e Tango de Nancy (O Corsário do Rei); A Cidade dos Artistas (Os Saltimbancos Trapalhões); Biscate (Suburbano Coração); Flor da Idade (Gota D’Água), e os exemplos não param. / CLAUDIO BOTELHO

TODOS OS MUSICAIS DE CHICO BUARQUE EM 90 MINUTOS

Teatro Faap. Rua Alagoas, 903, 3662-7233. 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 18h. R$ 100/ R$ 120. Até 7/9.

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