Em nova peça, Luana Piovani brinca com as palavras

Adaptação da obra de Adriana Falcão, ‘Mania de Explicação’ tem direção de Gabriel Villela e músicas de Raul Seixas

Fernanda Araujo, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2014 | 02h00

Isabel não se contenta com o significado das palavras. Esperta, inventa definições e junta um verbete no outro, sem perder o fôlego. Para ela, solidão, por exemplo, é uma ilha com saudade de um barco. E saudade é quando o momento tenta fugir na lembrança para acontecer de novo e não consegue. Protagonizado por Luana Piovani, o jogo de sentidos está na peça Mania de Explicação, que estreia domingo, 10, às 16h, no Teatro Frei Caneca.

“Conheci o livro de Adriana Falcão há alguns anos e me apaixonei”, diz a atriz, que teve a ajuda da própria escritora e de Luiz Estelitta Lins para adaptar a obra para roteiro de teatro. Com músicas de Raul Seixas e direção de Gabriel Villela, este é o quarto projeto da Luana Piovani Produções Artísticas.

De Minas para o Rio, onde a montagem estreou, Villela trouxe um ateliê móvel, em um caminhãozinho baú. De dentro dele, o figurino foi desabrochando entre texturas e estampas, paralelo aos tons da maquiagem e o timbre de voz que seria usado em cena. “Meu ateliê é como um circo que levanta a lona e depois desmancha. É um trabalho de obreiro, em conjunto com vários profissionais”, explica o diretor. 

Mas narrar o mundo lírico da obra exigiu uma destreza ainda maior, digna de ilusionismo. Para o ofício, convidaram Chicó do Mamulengo, aderecista do Rio Grande do Norte, que deu forma às palavras por meio de pequenos truques. A lua, por exemplo, surge entre raios de luz que iluminam a roda traseira da bicicleta de Isabel no momento em que o veículo é virado de cabeça para baixo. A cachoeira é representada por um ator negro cujas lágrimas (produzidas artificialmente) enchem o aquário de peixinhos de papel que ele carrega nas mãos.

As crianças, apesar de não entenderem a profundidade de algumas cenas, entram na brincadeira e, no fim das contas, até entendem, cada uma à sua maneira. Os clássicos de Raul Seixas, entoados ao vivo, também agradam a pais e filhos. 

“O tempo ficou curto. Não há mais o dia do filho. O filho foi incorporado aos programas do pai e essa é a maneira de estarem juntos”, avalia Luana. Ela própria é um exemplo. Sempre que possível leva o filho Tom, de 2 anos, para ficar com ela no teatro. 

Apesar de ser uma pessoa conhecida, Luana tem consciência da batalha em atrair o público: “O poder aquisitivo que aumentou foi o do pobre, mas o pobre não quer ir ao teatro, quer comprar televisão e ver TV a cabo. Se o Brasil priorizar escolas, todo mundo vai querer ler mais Monteiro Lobato”.

De fato, a atriz dá sua contribuição. Não economiza recursos para produzir um espetáculo de grandes dimensões, investe na tradução simultânea em libras aos domingos e dá 50% de desconto no valor integral do ingresso mediante doação de uma lata de leite em pó. 

Adriana Falcão, que afirma ter visto a peça “umas 500 vezes”, não estará presente na estreia paulistana. A roteirista prepara o último capítulo da série da Globo A Grande Família, ciclo que se encerra após 14 anos. 

MANIA DE EXPLICAÇÃO

Teatro Shopping Frei Caneca. Rua Frei Caneca, 569, 7º andar, 3472-2229. Sáb. e dom., às 16 h. R$ 70. Até 30/11. Estreia domingo, 10.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.