Lenise Pinheiro/Divulgação
Lenise Pinheiro/Divulgação

Elisa Ohtake dirige cinco atores em torno da potência da paixão

Grupo de 'Let’s Just Kiss and Say Goodbye' revisita com competência clássicos da dramaturgia e constrói narrativa bem-humorada

Helena Katz, Especial para O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2014 | 03h00

É um tanto fora do comum, porque não é sempre que um artista dirige dança e teatro mantendo uma mesma questão nos dois trabalhos. Elisa Ohtake acaba de fazer isso: estreou Tira Meu Fôlego com cinco intérpretes excelentes, em fevereiro, e agora está em cena no Sesc Santana, até o domingo, 14, com cinco atores maravilhosos, em Let’s Just Kiss and Say Goodbye. Na dança e no teatro, o que lhe interessa é pensar a vitalidade – tema fundamental nos dias que correm. 

As duas produções foram organizadas em torno da potência da paixão. Quem teve o privilégio de assisti-las deve reconhecer que Elisa está inventando um jeito de lidar com a cena, que poderia ser chamado de “uma outra lógica de dramaturgia”. Nela, ocorre uma inversão: em vez de a dramaturgia acontecer no lidar com materiais existentes ou especialmente criados para a ocasião, aqui ela se dá como invenção de um jeito de pensar as artes da cena, todas elas. Por isso, pode aplicar-se à dança ou ao teatro, bem como às outras que compartilhem desse mesmo ambiente.

O mais instigante começa aí: por que uma mesma lógica pode ocorrer em situações artísticas distintas? Elisa configura um jeito de dirigir tão original que precisa criar os próprios fazeres – nos dois casos, seu texto e a narratividade que os conduz. Mas sua característica fundacional está no fato de essa lógica poder existir em completa autonomia do que vai constituí-la e em total dependência da artesania dos que vão lhe dar corpo. Na mesma medida em que os materiais perdem peso, os intérpretes ganham importância central. 

E é justamente para esse tipo de autonomia que se deve atentar para poder perceber que a independência entre a ação de dirigir e aquilo que está sendo dirigido acontece como uma sobreposição porque o que está sendo permanentemente criado com essa “outra lógica de dramaturgia” é a dramaturgia-obra. A dramaturgia posta em cena passa a ser a obra. É ela que precisa inventar os materiais e, por isso, pode materializar-se como dança, como teatro ou como outra vertente artística. Esse é um detalhe diferenciador de outros, que também assinam um modo próprio de dirigir.

Em Let’s Just Kiss and Say Goodbye, Danilo Grangheia, Georgette Fadel, Luah Guimarãez, Luciana Schwinden e Rodrigo Bolzan esbanjam competência. Apenas um domínio tão completo da artesania do teatro – que cada um deles demonstra da sua maneira –, poderia fazê-los escapar da cilada sutil de tornarem-se personagens de si mesmo. E eles conseguem, em cada uma das cenas que nos mostram, deixar o próprio fazer teatral no papel de protagonista. Sabem explorar a potência da ambiguidade sem resvalar para a representação da ironia.

Como na canção que em 1976 celebrizou o The Manhattans, Kiss and Say Goodbye, cada um dos atores também se despede de seu amante – no caso, o teatro. Todos fazem isso com um teatro que não fica atrás deles e sendo atores que não ficam atrás do teatro. Você volta para casa lembrando do final do Poema de Sete Faces, de Drummond: “Eu não devia te dizer/ mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gente comovido como o diabo”. Só que substituindo lua por dramaturgia e conhaque por atores.

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