Ela emprestou a seus papéis enorme carga expressiva

Nascida em 1923, Maria Callas desenvolveu sua carreira em um momento especial da história da ópera. Nos anos 50 e 60, a indústria de gravações vivia um período áureo, construindo seus primeiros fenômenos - e a soprano, em pouco mais de dez anos, gravou 69 discos, que, aliás, acabam de ser relançados em uma caixa da EMI. No mesmo período, uma outra mudança significativa: grandes diretores começavam a transformar as encenações, dando a elas caráter autoral - e nomes como Luchino Visconti, no palco, e Pier Paolo Pasolini, no cinema, fizeram de Callas sua musa, exemplo mais bem acabado de cantora que fazia da voz não um fim em si mesmo, mas parte de um trabalho mais amplo e cuidadoso de construção de papéis.

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S. Paulo

10 Setembro 2014 | 03h00

Este contexto ajuda a situar a carreira desenvolvida pela soprano. Mas não diminuiu a grandiosidade de suas interpretações. Callas cantou de tudo, de autores barrocos a Richard Wagner, ainda que a chave de seu repertório estivesse nos autores do classicismo e romantismo italianos, em especial Donizetti, Verdi e Puccini. Sua Tosca ou Medeia se tornaram referências incontornáveis até hoje. E isso porque a soprano emprestou a esses papéis enorme carga expressiva. Por mais que existam poucos registros em vídeo de suas atuações, as gravações em áudio já sugerem uma cantora que corria riscos a cada nota - assim como era arriscado se submeter a um leque tão grande de papéis. Não por acaso, seu auge não dura mais do que uma década e logo sua voz demonstraria sinais de desgaste, dos quais são testemunhos seus últimos discos.

Mas foi justamente esta inconsequência, este canto levado ao extremo, que transformou a soprano em símbolo do que a ópera pode ter de mais visceral. Assim como sua vida pessoal. A infância e adolescência difíceis; o casamento precoce com Giovanni Battista Meneghini; o divórcio rumoroso; os desentendimentos com maestros e colegas cantores. Callas foi celebrada, desejada, cobiçada, odiada. Trocou o canto pela história de amor com Aristóteles Onassis, que optou pelo casamento com Jacqueline Kennedy. Era tarde demais para voltar aos palcos. O drama de suas principais personagens, às voltas com a impossibilidade do amor, invadia a vida real. E Callas terminaria a vida sozinha, longe da música, em seu apartamento em Paris.

Callas não foi a única grande cantora de sua época. Houve, naquele instante, outras grandes intérpretes de Traviata, Medeia, Lucia, Julieta, Norma, Nedda, Tosca, Madalena, Carmen, Gilda e tantos outros papéis. A diferença é que, no imaginário do público, Callas não apenas as viveu no palco: em seu destino trágico, ela foi cada uma delas. 

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