Duas peças no inverno das esperanças de Chekhov

‘E Se Elas Fossem para Moscou?’ e ‘Não Vejo Moscou da Janela do Meu Quarto’, em cartaz em SP, dialogam com o universo do autor russo

Jefferson Del Rios, Especial para O Estado de S. Paulo

30 de julho de 2014 | 02h00

Um aniversário, como outras comemorações familiares, pode ser festividade ou mergulho no lado escuro da vida. O assunto já produziu grande literatura, cinema e teatro. O russo Anton Chekhov conseguiu como poucos dar transcendência a estes retalhos do cotidiano. Sua peça As Três Irmãs é o ponto de partida de E Se Elas fossem para Moscou?, na adaptação e direção de Christiane Jatahy, que também se incumbe da parte audiovisual. Entre o vinho e o bolo, mulheres de idades, temperamentos e motivações existenciais diversas fazem a longa viagem que não acontece no espaço mas no tempo interior de cada uma. Há presenças masculinas em um universo acanhado e distante da Moscou das liberdades idealizadas. Elas não estão felizes e suas razões permeiam a anti-cerimônia que vai do riso às confissões, cobranças e amores imaginados. Sentem-se exiladas na província e Chekhov segue a máxima de Ésquilo, o pai da tragédia grega: “Os exilados se alimentam de esperança”. A síntese do enredo justifica o título da peça que Jatahy constrói com pequenos movimentos emotivos, frases amargas e risos nervosos sublinhados por soluções virtuais numa espécie de vídeo-representação. 

A proposta é ampliar a solidão humana, como aquela apontada na abstração de um Samuel Beckett, até as pessoas palpáveis e destituídas de perspectivas. A encenação deixa claro que “Moscou não é exatamente Moscou mas o que quisermos imaginar”. O peso desse sentimento do mundo vai da poesia de Drummond a uma composição de Lobão (“A cidade enlouquece em sonhos tortos /Nada é o que parece ser/As pessoas enlouquecem calmamente/ Viciosamente, sem prazer”). Eis o cotidiano das irmãs: Olga, solteira sem ilusões matrimoniais, Maria, farta do marido, e a jovem Irina, que voluntariosamente crê em Moscou. O enredo original é mais intrincado e com sinais da época pré-revolucionária que mudaria a Rússia imperial em 1917. Mulheres paradoxalmente intensas nos desejos e vulneráveis por si mesmas e pelas circunstâncias. Percebem, uma a uma, que continuarão sem dar o passo rumo a Moscou. 

Se para as irmãs tudo é efêmero como o teatro (segundo um lugar comum desbotado), Christiane Jatahy e a Cia. Vértice, do Rio, pretendem mostrar uma condição feminina especifica e desfazer o suposto destino vão da cena teatral clássica. Múltiplos recursos, sobretudo do cinema, têm sido o instrumento dessa vertente artística que procura mesclar as duas linguagens. Há resultados bons e outros que deixam a desejar. Jatahy pratica esse hibridismo com habilidade e recursos que “dialogam com distintas áreas artísticas”. Por casualidade, a temporada oferece outra montagem do mesmo autor em cruzamento com um conto de Júlio Cortázar sendo, digamos, exclusivamente teatro. Trata-se de Não Vejo Moscou da Janela do Meu Quarto (SP Escola de Teatro). Com texto e direção de Silvana Garcia e elenco formado por Maria Tuca Fanchin, Sol Faganello e Leonardo Devitto, o trabalho igualmente experimental tenta apreender um cotidiano “desalentado, que é também um lugar de alienação, de alheamento em relação ao mundo”. A parte tchekhoviana é facilitada pelo conteúdo explicito em detrimento do fugidio ângulo fantástico cortaziano. Ainda que irregular no todo, a representação consegue sequências que o projeto anuncia. Rara oportunidade de se aferir as duas faces da moeda. 

Jatahy mostra segurança em seu projeto. Há uma bem humorada e não invasiva interação com a plateia. Quem quiser vai ao palco conviver com as irmãs. Só aos poucos o drama se impõe. A bebida sobe, as lágrimas descem e os olhares evidenciam a angústia. As irmãs percebem que é necessário ação e risco para se chegar a Moscou. Ocorre um embate entre a aparelhagem e a linda representação das atrizes Julia Bernat, Isabel Teixeira e Stella Rabello. Sem nenhum passadismo crítico, o fato é que são as intérpretes que comovem. No entanto, um feliz achado técnico ajuda o clima pretendido quando um telão reflete a plateia. Há um instante de “espelho meu, espelho meu, quem é mais do que eu”. As irmãs não irão a Moscou mas, do lado de cá, quem irá? 

E SE ELAS FOSSEM PARA MOSCOU?

Sesc Belenzinho. R. Pe Adelino, 1.000, tel. 2076-9700. 5ª a sáb., 21h30; dom., 18h30. R$ 25. Até 17/8.

NÃO VEJO MOSCOU DA JANELA DO MEU QUARTO

SP Escola de Teatro. R. Praça Roosevelt, 210, tel. 3775-8600. 3ª e 4ª, 21 h. R$ 20. Até 27/8. 

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