Como 20 páginas se transformaram em 2h30 de peça

Quando acordei hoje às 6 h da manhã, havia uma mensagem do Bira no meu celular: será que eu escreveria um texto sobre Robert Lepage para o ‘Estadão’?

O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2014 | 16h00

“Mas logo hoje?”, pensei. Vim passar o dia na fazenda que acaba de ser vendida, me despedir desse paraíso perdido que me inspirou tanto, e onde guardo o cenário de Os Sete Afluentes do Rio Ota. Tentava justamente encontrar um lugar que pudesse abrigar a cenografia dessa saga teatral do Lepage que tive a petulância de montar sem nunca ter feito teatro, quando faltou luz. Em poucos minutos fiquei sem computador, sem bateria, sem comunicação. Procurei o livro que tinha trazido para ler, mas havia seguido para a cidade, esqueci no carro. Então, comecei a achar que tudo conspirava para eu escrever o texto.

A primeira vez que encontrei Robert Lepage foi em 1989, quando ele ainda era o diretor artístico do National Arts Centre em Ottawa. Em visita ao Canadá para conversas com Edouard Lock, coreógrafo do Lalala Human Steps que viria a se apresentar no Carlton Dance Festival que produzíamos, aproveitei para lhe apresentar um vídeo com trechos das peças de Gerald Thomas, que este mesmo havia editado. Ao terminar de assistir, Lepage perguntou: “Porque esse diretor deixou tantos minutos de aplauso no video?”

A partir de perguntas assim, muito simples, de comentários concisos e agudos, Lepage nos faz pensar e refletir sobre a realidade em que vivemos. Esta é a base de sua dramaturgia. E o formato que a história vai ganhar, formato físico, servirá de alicerce para sua construção dramática.

No Rio Ota, era o retângulo multifacetado que se transformava numa habitação japonesa, em vitrines do distrito da luz vermelha, num campo de concentração nazista, num loft nova-iorquino, em estúdio de gravação, coxia ou palco de um espetáculo de vaudeville, para narrar a saga de uma família e traçar um retrato contundente de fatos históricos que marcaram o século 20: a bomba de Hiroshima, a aids, o holocausto, o mundo do espetáculo.

Em O Lado Oculto da Lua, ele parte de um orifício de uma máquina de lavar, que também é a janela de uma nave espacial, ou o tubo de um aparelho de tomografia computadorizada, para formular uma belíssima metáfora entre a corrida espacial USA x URSS e a competição entre dois irmãos gêmeos.

A segunda vez que nos encontramos foi quando Lepage viveu esses dois irmãos e a mãe deles no palco no Carton Artes, evento que produzimos em 2001. Foi uma experiência arrebatadora. Lembro-me que não conseguia entender como vinte páginas se transformariam em duas horas e meia de peça. É que, além do seu poder de síntese, da poesia do seu texto, da beleza formal de suas criações, há todo o resto que Lepage incorpora: o cinema, a música, a dança, a mágica, a mímica. Ele estava encantado com São Paulo: “um segredo bem guardado”. 

Nessa ocasião, discutimos a possibilidade de trazer o Rio Ota para o Brasil. Ele me explicou que seria impossível, aquele grupo já não estava junto. Perguntei se poderíamos montar com atores brasileiros. Respondeu que esses atores teriam que passar alguns meses no Canadá, para que os ensaiasse. Muito difícil. Então propus montar com Michele Matalon, no Brasil. O retângulo de Lepage, que era formado por trilhos sobre os quais paredes ou espelhos ou portas japonesas corriam, foi recriado e transformado por Helio Eichbauer em três caixas quadradas “mágicas”, que rodavam, davam ré, avançavam e mudavam de forma a cada situação, mas sempre resultando num retângulo.

Estreamos e o Rio Ota virou um marco. Nunca mais falamos. Não sei o que achou de nossa montagem. Se assistiu ao DVD que enviamos. Se teria ficado chocado com as tantas músicas pop que incluí numa peça cuja trilha se compunha primordialmente de gagaku. Se teria aprovado os tantos filmes extras que incluí sobre Hiroshima, sobre o exército americano, a infância de Jeffrey ao lado do pai Luke, a animação mangá. Se teria aprovado a cena de dança do holocausto que criei, ao som de uma gravação da época do maestro Glenn Miller. Se ele me perdoaria por ter mudado um tiquinho o final, que deveria ser circular, com o abandono da amada cega pelo bailarino de Butô, assim como no primeiro capítulo, assim como na trágica Madame Butterfly. Eu precisava de um final feliz.

Até hoje me perguntam se não vou remontá-lo. Estou tentando, ainda guardo o cenário. Através dele, elaborei a perda de minha irmã. O capítulo dos irmãos “Jeffreys” poderia se chamar “Sylvias”, ou “Moniques”. Éramos um coisa só. Agora o Lepage reaparece e me acompanha nesse dia singular.

Quando me contaram da venda da fazenda, soube em seguida da vinda do Lepage. O presidente do fã clube do Rio Ota já disparava e-mail a todos. E logo receberia um convite carinhoso do Sesc. Mas a minha ansiedade já era enorme, entrei no site e comprei os ingressos no mesmo instante. No release virtual, eles diziam que Lepage se tornou famoso no Brasil por conta da minha montagem do Rio Ota. Quem sou eu... Eu é que me tornei uma “famosa” diretora teatral por causa do Lepage.

Obrigada, Lepage, pela companhia. Merci, Robert. Merde!

MONIQUE GARDENBERG DIRIGIU 'OS SETE AFLUENTES DO RIO OTA' EM 2002

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