Kleyton Guilherme/Divulgação
Kleyton Guilherme/Divulgação

Com texto minimalista, peça revê vida e conflitos de poetisa

Esteticamente bela, ‘Ilhada em Mim’ explora o sofrimento e as questões internas de Sylvia Plath, que se matou em 63

Jefferson Del Rios, Especial para o Estado

20 de outubro de 2014 | 03h00

Crítica: Montagem é autônoma na fulidez derivada da pintura e da dança

O espetáculo Ilhada em Mim, dedicado à poetisa Sylvia Plath, dissolve as fronteiras entre teatro e artes visuais. O resultado é plasticamente belo e dramaticamente intenso. O projeto do grupo Estúdio Lusco Fusco pressupõe um público conhecedor da vida e obra de Plath (1932 – 1963), mas enquanto teatralidade é autônomo na fluidez e subjetividade derivados da pintura e da dança. O minimalismo da escrita de Gabriela Mellão, autora da peça, está emoldurado por um espelho d’água sobre o palco, luzes coloridas, jarros que gotejam e a projeção de poemas enquanto se ouve Plath em uma gravação de 1962. A poetisa norte-americana, ao se suicidar, deixou um mistério sobre si mesma e sua relação com o marido, também poeta, o inglês Ted Hughes (1930 – 1998) e versos extraordinários. Sua temática é confessional na abordagem do sofrimento interior, erotismo e tentativa de afirmação pessoal. O conflito conjugal subjacente e o andamento tenso dessa poesia chegam perto das águas escuras do desequilíbrio psíquico.

Há suicidas que partem de surpresa, outros deixam evidências clínicas de crises – sobretudo a depressão. Existem relatos conhecidos, até em excesso, por um certo “clima” trágico-romanesco, como a da inglesa Virginia Woolf (1882 – 1941) que se afogou em um rio. Menos citado é o poeta norte americano Hart Crane (1899 – 1932) que, aos 33 anos, atirou-se ao mar durante uma viagem de navio. Por cruel ironia, alguns são criadores ligados à alegria ou ao humor, como o compositor Assis Valente (1911 – 1958) – vale a pena ouvir o seu triste Boas Festas, sobre o Natal – e o esquecido Péricles Maranhão (1924 – 1961) que imaginou uma das maiores figuras do humor gráfico brasileiro, O Amigo da Onça, homenzinho divertidamente maldoso que conquistou o país através da extinta revista O Cruzeiro. Ainda hoje a expressão “amigo da onça” é usada para pessoa duvidosa. Este artesão da ironia abriu o gás em Copacabana, no réveillon de 1961. 

Silvia Plath faz parte da trágica lista. Teve o mesmo gesto de Péricles depois de proteger os filhos Frieda e Nicholas. No entanto, Frieda Hughes, no prefácio do livro póstumo Ariel, prefere ver a mãe celebrada não como vítima, mas alguém que viveu nos limites de suas possibilidades. Diz que esses poemas finais representam uma realização de altíssimo nível em um estado emocional à borda do precipício. Acrescenta que os poemas “não podem ser enfiados na boca de atores, em qualquer invenção cinematográfica de sua história, na expectativa de que possam dar vida a ela novamente.” Conclui que a versão ficcional dessa existência não deve “parodiar a vida que ela mesmo viveu. Desde que morreu, ela tem sido dissecada, analisada, reinterpretada, ficionalizada e, em alguns casos, completamente fabricada”.

Frieda encontrou ressonância na fina sensibilidade de escritora de Gabriela Mellão e no espetáculo de Andre Guerreiro Lopes. Levou-se à cena algo que pode ser visto como um adagio existencial. Do relacionamento com Ted Hughes, que inclui afinidades culturais, maternidade, embates de temperamento e ciúmes (Ted teve uma amante e Sylvia descobriu), o que se vê na representação são reações opostas. De um lado movimentos de pressão e descompressão corporal e explosões verbais curtas na apaixonada interpretação de Djin Sganzerla. Do outro, os lentos deslocamentos do marido que, como ator, o mesmo Lopes executa com um ar entre o distante e o sonhador. Essa dança misteriosa sobre espaços molhados é a metáfora da relação sem saída entre dois expoentes da poesia contemporânea de língua inglesa. Não há explicações realistas para um acontecimento que despertou paixão, fúria, equívocos e acusações (Ted Hughes foi moralmente apedrejado durante anos pelo feminismo radical e, depois, por ter editado com cortes o livro da ex-mulher. A filha o defende). 

O espetáculo prende a atenção porque, em vez de julgar, observa compassivo os desencontros nas relações humanas. Com isso, estimula ainda a leitura de Ariel e outros livros de Plath, como o romance Redoma de Vidro. Sob o bonito jogo de luzes de Marcelo Lazzaratto, Ilhada em Mim apresenta um sentimento do mundo que os poetas, como sempre, captam com precisão. Pode-se entrever Sylvia Plath nos versos de Chico Buarque: “E quando o seu bem-querer dormir / Tome conta que ele sonhe em paz / Como alguém que lhe apagasse a luz / Vedasse a porta e abrisse o gás”.

ILHADA EM MIM

Sesc Pinheiros. Auditório. Rua Paes Leme, 195, 3095-9400. 5ª a sáb., 20h30. R$ 5/R$ 25. 60 min.; 14 anos. Até 1/11. Sessão extra na sexta, 17h.

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