Christiane Jatahy estreia texto de Chekhov, que pode ser visto como peça e filme

Há tempos desenvolvendo novas possibilidades cênicas, diretora abre nesta quinta-feira temporada de 'E Se Ela Fossem para Moscou?'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2014 | 02h00

Há uma pequena piscina que desempenha um papel essencial no novo espetáculo de Christiane Jatahy. Trata-se de um díptico – E Se Ela Fossem para Moscou?, livremente, mas não tão livremente assim, adaptado de Chekhov. O autor russo está todo lá, mas Christiane agrega alguma coisa. Ao teatro, soma o cinema. São dois espetáculos, que o espectador vê como peça e como filme. Em ambos, a piscina é pivotal. A água está sempre presente, mas é a piscina que faz a passagem dos dois universos, o real (físico) e o virtual.

Ela ousa, de novo. Ou melhor, ela conseguiu – de novo (e mais ainda). Há tempos, Christiane vem desenvolvendo, no teatro e no cinema, um trabalho voltado à pesquisa de novas possibilidades cênicas, e novas linguagens. Chekhov sempre foi, para ela, desde a escola de teatro, uma paixão. E agora Christiane propõe um jogo dos mais fascinantes. E Se Elas Fossem para Moscou?, que estreia nesta quinta-feira, 17, no Sesc Belenzinho, é bem ousado. Você pode ver a montagem da peça As Três Irmãs, mas isso é só meio espetáculo. Digamos que nesta semana você veja a peça. A novidade é que na sexta-feira, e no mesmo local, embora em outra sala, você poderá ver a filmagem da peça. Na peça, o seu olhar poderá se distribuir pelo palco e pelas atrizes que fazem Olga, Maria e Irina. No filme, é o mesmo espetáculo, porém diferente. A filmagem e a edição da própria Christiane vão direcionar seu olhar. Você vai ver coisas que talvez tenham passado despercebidas.

“Chekhov é clássico e totalmente contemporâneo”, reflete a diretora. A peça começa sob o signo da contemporaneidade. As atrizes citam dia e hora em que começa a encenação. E logo em seguida elas estão viajando no tempo, recuperando o verbo chekhoviano. Em discussão, a possibilidade de mudança. As três irmãs se reúnem para comemorar os 20 anos de Irina, um ano após a morte do pai – que deu, de presente para a filha, no aniversário anterior, uma câmera. A solteirona Olga, a casada e insatisfeita Maria, a jovem Irina. Querem voltar para Moscou, onde tiveram uma infância feliz. Como sempre, em Chekhov, há um desejo de movimento, e uma paralisia.

E se elas fossem para Moscou? E se Moscou for o passo em direção à mudança? “É uma peça em que as câmeras fazem parte da dramaturgia, e também é um filme, com recursos de cinema. Não é teatro filmado”, esclarece a diretora. “São dois espaços entrelaçados. No teatro, filmamos, editamos e mixamos ao vivo o que é visto no cinema. Simultaneamente, as duas artes coexistem, mais que isso, a peça e o filme se completam como obra. Como teatro, expressa o tempo presente, fugaz, que quando vira filme, um segundo depois, no outro espaço, já é passado. É a tragédia do tempo no cinema. Ele reflete sempre alguma coisa que já foi. E o público escolhe de qual ponto de vista quer ver a história.”

Na verdade, não é só Irina quem, munida da câmera, está filmando o próprio aniversário. Mais duas câmeras completam a operação montada por Christiane Jatahy. Uma delas é fixa, assentada em diferentes pontos do cenário, de acordo com a decupagem do filme. A outra é carregada por um quarto personagem, e de tal maneira que vira uma câmera subjetiva. Quem fala com ele, fala para o público, no filme. E, na cena de sexo, o espectador vira voyeur. A mulher que olha nos olhos do amante encara o público. Paulo Camacho é quem porta a câmera. Um ator que filma? “Não, um câmera que atua”, diz Christiane. Ela precisava desse personagem. Camacho, que assina a fotografia do filme, encarou o desafio. “Superou minha expectativa”, ela diz. Todo o elenco superou, e por isso Christiane está triste. Duas de suas três atrizes estão indicadas para o Prêmio Shell, no Rio. “Só podiam indicar duas. Se tivessem indicado uma, teriam feito uma escolha. Só que excluíram a Isabel (Teixeira), e ela é tão boa quanto Stella (Rabello) e Júlia (Bernat).”

Júlia Bernat, vale lembrar, já havia sido a senhorita Júlia de Christiane. E Isabel Teixeira brilhou, aqui mesmo nos palcos de São Paulo, na celebrada montagem de Rainhas, de Cibele Forjaz. A própria Christiane concorre nas categorias direção e inovação, criada justamente não só para abrigar seu trabalho mas também o de um jovem diretor, Gustavo Gasparini, que concorre por seu espetáculo Samba Futebol Clube, que também pesquisa o gênero musical à brasileira. Christiane já está acostumada a ser uma categoria à parte. Desde o começo dos anos 2000 vem pesquisando as relações entre teatro e cinema. Dirigiu, entre outras, as peças A Falta Que nos Move, que virou filme, e Corte Seco, que era editada ao vivo, no palco, com a filmagem feita por câmeras de segurança. Até então, ela trabalhava com base documentária. Em Júlia, agregou a ficção – Senhorita Júlia, de Strindberg. E, agora, Chekhov. É, lá e cá, uma grande diretora.

Arte na fronteira que atraiu Malle e Coutinho

Se o sonho das personagens de As Três Irmãs é ir para Moscou, o sonho nada secreto da diretora Christiane Jatahy é levar suas pesquisas de teatro e cinema para o foro do próprio cinema. Ela mostra E Se Elas Fossem para Moscou? num festival de teatro na Suíça, em setembro. Depois, em novembro, estreia a peça em Paris. Mas o que ela gostaria mesmo é de levar Moscou para um festival de cinema. Hesita em inscrever seu díptico. É muita mão de obra, exige circunstâncias especiais. Exige, isso sim – e ela sabe –, uma curadoria aberta ao novo.

Christiane pode ser uma das autoras/diretoras mais talentosas a transitar nessa área de fronteira – nas bordas do cinema e do teatro. Mesmo que não seja o melhor Eduardo Coutinho, Moscou trafega num universo próximo. O grande diretor fez seu documentário sobre os artistas do grupo mineiro Galpão, que encenavam justamente Chekhov – As Três Irmãs. Coutinho acompanha o dia a dia dos ensaios. Não interfere na interpretação dos atores. É uma forma de aprofundar a experiência anterior de Coutinho, Jogo de Cena – que é melhor.

Algo tem esse Chekhov, que atrai tanto os grandes encenadores (e diretores). Chekhov radiografou, em suas peças, o fim de uma era, na Rússia pré-revolucionária. Na peça As Três Irmãs, as últimas palavras são de Olga – “Nossa vida não terminou. Nós viveremos.” Ela diz isso com amargura, mais que com esperança. Em Moscou, quem diz a frase é o próprio diretor, Coutinho. Antes dele, e do díptico de Christiane, Louis Malle fez outro Chekhov, Tio Vânia em Nova York. Na contramão da diretora brasileira, Malle, filmando atores que leem a peça, também abriu uma via inovadora para o diálogo entre cinema e teatro. / L.C.M.

E SE ELAS FOSSEM PARA MOSCOU?

Sesc Belenzinho. R. Pe Adelino, 1.000, tel. 2076-9700. 5ª a sáb., 21h30; dom., 18h30. R$ 25. Até 17/8.

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