MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO
MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO

'Bom Retiro 958 Metros' ganha versão chilena

Peça deve percorrer, no mês de janeiro no festival Santigo a Mil, o bairro do Patronato, semelhante à região que dá nome à montagem

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

02 de outubro de 2014 | 21h00

Existente desde 1994, o festival Santiago a Mil, na capital chilena, teve uma carreira ascendente. Em 21 anos de história, o evento levou mais de mil espetáculos nacionais e internacionais às 15 regiões do país, atraindo um público de mais de oito milhões de pessoas. Com alianças internacionais, a curadoria do evento observa, também, a cena teatral brasileira – no ano passado, por exemplo, a Companhia Hiato integrou a programação com três espetáculos. No próximo mês de janeiro, é a vez do Teatro da Vertigem.

Em 2012, o grupo estreou Bom Retiro 958 Metros. A montagem, certamente uma das mais ousadas da temporada, abordava questões como consumismo e a escravidão na indústria têxtil. Para isso, circulava por ruas do bairro homônimo, usando como cenário uma galeria, um teatro abandonado e as próprias ruas. A empreitada chamou a atenção da equipe do festival chileno, que convidou o Vertigem para criar uma versão andina da montagem.

O bairro que abrigará o circuito é o Patronato. Próximo à região central de Santiago, o perímetro tem características parecidas com o paulistano Bom Retiro. “É um bairro têxtil, é para lá que as pessoas vão para comprar roupa mais barata”, diz Antônio Araújo, que dirige a montagem em parceria com Eliana Monteiro. “Além disso, há um movimento mais recente de imigração coreana.” Os movimentos migratórios, no entanto, também configuram diferenças. Enquanto em São Paulo a região foi formada por italianos e judeus, Santiago recebeu uma grande comunidade palestina.

Ao lado do iluminador Guilherme Bonfanti e da cenógrafa Laura Vinci, Araújo fez uma visita técnica à cidade há cerca de duas semanas. Na ocasião, o trio passou por quase todas as ruas, analisando as possibilidades de adaptação da peça. Da equipe do Santiago a Mil, eles receberam um livro e uma tese de doutorado sobre a história do bairro.

O espetáculo, que vai se chamar Patronato XXX Metros (ainda é preciso medir a extensão do percurso), segue a mesma ideia do irmão brasileiro. O público se encontra em um local e, partindo de lá, faz um passeio pelo bairro. Como a adaptação ainda está em curso, os detalhes não estão definidos. Há, no entanto, duas opções preliminares de trajeto. Segundo Araújo, serão necessárias algumas mudanças na temática da peça. A questão migratória, por exemplo, pode ficar mais evidente, enquanto a abordagem à escravidão fica comprometida porque, diferentemente do Bom Retiro, o Patronato não teria a exploração de uma comunidade específica.

Assim como em São Paulo, um teatro abandonado foi encontrado na região. No entanto, não foi possível utilizá-lo. A saída vai ser a ocupação de um antigo teatro que, hoje reformado, abriga uma boate em funcionamento.

Enquanto não chega a hora de ir para o Chile, o Vertigem discute a adaptação na programação de despedida do ‘É Logo Ali’ – pelo qual o Sesc Ipiranga passou a ocupar um casarão vizinho, à espera do fim da obra parcial da sede. A partir de terça-feira, o público interessado participa de encontros nos quais serão discutidas as relações entre o Bom Retiro e o Patronato. Nos dias 15 e 16, o grupo abre o processo para o público geral, mostrando o trabalho obtido das reuniões.

BOM RETIRO REVISITADO – ABERTURA DE PROCESSO

Casarão ‘É Logo Ali’. Rua Bom Pastor, 709, Ipiranga, 3340-2000. Dias 15 e 16, 21 h. R$ 2,40/R$ 12.

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