Bolshoi se reequilibra uma década após crise

Escola dribla dificuldades financeiras geradas pelo escândalo de 2004

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2014 | 16h00

JOINVILLE - Célia Campos jantava em uma pizzaria, em um domingo de outubro de 2004, quando percebeu um número incomum de chamadas não atendidas em seu celular. Era a repercussão de uma matéria veiculada pelo programa Fantástico, da Rede Globo, sobre uma suspeita de corrupção na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil – instituição cuja equipe administrativa ela integrava.

A reportagem do dominical abordava a denúncia, pelo Ministério Público, de improbidade administrativa na instalação e manutenção da escola em Joinville. Entre os réus estavam João Prestes – que foi responsável pelas negociações de patrocínio à escola e é filho do líder comunista Luís Carlos Prestes – e sua esposa e então supervisora da escola, Joseney Braska Negrão. Dos processos abertos, alguns foram julgados improcedentes, outros ainda tramitam.

A notícia causou furor na cidade que, apesar de ser a maior em Santa Catarina, tem porte médio (a última estimativa de população do IBGE, em 2013, é de 546.981 habitantes). “Quando uma informação destas sai na mídia, não existe mais suspeita. Existe uma condenação. Fomos imediatamente condenados”, diz Célia. “Andar uniformizada naquele momento era muito difícil. As pessoas nos olhavam como se fôssemos criminosos.”

Após a acusação, a escola, que vivia de patrocínio, começou a ver a queda de sua renda. Os Correios, principais patrocinadores, cancelaram a parceria com o Bolshoi. A empresa contribuía com R$ 3,5 milhões anuais. O restante dos apoiadores também cortou ou diminuiu sensivelmente o repasse de verba. “Empresas que investiam R$ 3 milhões passaram a enviar R$ 300 mil”, lembra.

Com o afastamento dos acusados, a funcionária passou a ser diretora administrativa e financeira e Valdir Steglich, então ortopedista da escola, tornou-se presidente. A nova gestão teve de seguir adiante com uma dívida de R$ 1,6 milhão e lidar com a reputação arranhada que dificultava a conquista de novos patrocinadores. “Tinha empresa que dizia que poderia ajudar, mas não queria que o nome aparecesse vinculado ao Bolshoi”, diz Steglich. “Eu estava louco para aceitar o dinheiro, mas, desta forma, eu não podia aceitar. Tudo tem de ter lastro.”

Enquanto se buscavam apoiadores, a escola enfrentava problemas cotidianos vindos das situações mais banais. Os salários atrasavam, o plano de saúde dos funcionários tinha de ser negociado e a compra de passes de ônibus envolvia cheque-caução. Ficou marcada para Célia a história do “tio da van”. Responsável pelo transporte de alunos, ele avisou que perderia a van e que estava sem condições de sustentar seus dois filhos. Sabendo do caso, um funcionário da escola emprestou parte de sua poupança à instituição. 

De lá para cá, a situação melhorou gradativamente. Com quase uma década de distância do escândalo, é menos difícil conseguir patrocínio. Hoje, o governo do estado de Santa Catarina colabora com R$ 3,5 milhões, o que cobre a escola no primeiro semestre. A outra metade do ano depende de apoiadores. Há, ainda, uma renda vinda dos espetáculos da companhia jovem do Bolshoi. “Este ano, nosso caixa ainda não está fechado. Precisamos de R$ 2 milhões”, diz Steglich. O fim do ano é um período pesado para a escola, que, além de bancar os adereços das apresentações dos alunos, tem de pagar o 13º.

A economia se faz onde se pode. Um exemplo é o clássico Giselle, montado em 2010. Para fazer os figurinos, a escola usou os croquis da matriz do Bolshoi, na Rússia, de autoria do estilista francês Hubert de Givenchy. Com os desenhos em mãos, duas funcionárias foram a São Paulo para comprar os tecidos na Rua 25 de Março e, assim, baratear o figurino. O mesmo ocorreu com O Quebra-nozes, que será apresentado este ano.

Evolução. Assim como a escola, os alunos evoluem – muitos dos que passaram por lá são, hoje, estrelas de companhias internacionais. A próxima a ir para fora é Amanda Gomes, de 18 anos. Goianiense, ela entrou na escola em 2006, aos dez anos. Foi uma aposta da família: seus pais deixaram a vida que tinham para trás e se mudaram, desempregados. Agora estão estáveis e Amanda, no mês que vem, passa a integrar o elenco da Kazan Opera and Ballet Theatre, na Rússia.

O repórter viajou a convite do Festival.

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