'Biomashup' não dá sossego para a percepção

Com rara combinação de densidade e delicadeza, seis excelentes intérpretes constroem emoções

Helena Katz, Especial para o Estado

17 Agosto 2014 | 03h00

Não é sempre que se encontra um trabalho irmão do momento em que vem ao mundo. Biomashup, nova produção do Lote, plataforma artística coordenada por Cristian Duarte desde 2011, gesta uma rara combinação de densidade e delicadeza e inaugura um modo de dizer o próprio e o comum no corpo.

O que está sendo “amassado” (mashup, em inglês, pode indicar uma mistura do que foi feito por terceiros) é, curiosamente, a biografia. Os diferentes conhecimentos que se estabilizaram no corpo de cada um dos seis excelentes intérpretes vão sendo mostrados não como suas posses e sem atá-los aos pronomes pessoais. A forma que cada passo toma aparece como um desígnio (de design, de desenho, de destino), ou seja, vai simplesmente acontecendo como uma organização motora indispensável para o corpo dançar. Esse jeito que despoja consegue misturar o geral (vida) e o particular (história pessoal).

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São sete maneiras de mostrar como o movimento pode ser corpo sem ser do corpo, pois a música que Tom Monteiro cria com o theremin (instrumento eletrônico com duas antenas que se relacionam com as mãos do músico) se dá nesse mesmo registro. Esta música-corpo acasala sonoridades e espacialidades pelos gestos de Tom, que a espalha, a agrupa, a tensiona, a distende, e ela vai conformando o ambiente. E à medida que os passos vão aparecendo em Alexandre Magno, Aline Bonamin, Clarice Lima, Felipe Stocco, Leandro Berton e Patrícia Árabe, vai desaparecendo a importância da sua referência.

É como se nascessem de novo naquele momento, deslocando a questão da autoria. Sem as retóricas esvaziadas que hoje povoam o assunto, nesse intrincado fazer nada “mede o passado com a régua de exagerar as distâncias” como dizia Drummond em Canção Final.

Uma outra beleza está na luz de André Boll, que anula as paredes e distende Biomashup para fora do andar que a plateia ocupa na Casa do Povo, no Bom Retiro. Ela dissolve as delimitações geográficas entre dentro e fora e transforma o cenário em cena. Não dá sossego para a percepção: tudo onde o olhar pousa se torna Biomashup, o céu, o horizonte...

A beleza se transmuta em emoção quando, na parte final, os sete artistas moldam uma nova pele na extremidade dos braços, que sela os sete corpos como quem diz: quando o movimento não quer viver no álbum de fotos precisa aprender a se equilibrar em um processo muito comprido de ajustes com a sua certidão de nascimento. 

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