Balé da Cidade, em viagem pelo tempo

Na terceira temporada de 2014, cia. mescla tradição e modernidade em 'Cacti' e na peça encomendada 'Antiche Danze'

MURILO BOMFIM, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2014 | 21h00

Quando a diretora artística do Balé da Cidade de São Paulo, Iracity Cardoso, convidou o coreógrafo italiano Mauro Bigonzetti para criar uma peça para a companhia, ela colocou duas condições: a coreografia tinha de ser feita para um grupo e a Orquestra Sinfônica Municipal deveria integrar o espetáculo. Bigonzetti já sabia o que faria. “Gosto destas músicas há muitos anos”, diz o coreógrafo, referindo-se a obras do conterrâneo Ottorino Respighi. “Este era o melhor momento para usá-las. Porque as músicas com orquestra ficam especiais. Simples, mas mágicas.”

Com estreia mundial amanhã, no Teatro Municipal, Antiche Danze tem, então, inspiração total na música. Neste contexto, Bigonzetti traduz os acordes do renascentismo para as sinfonias nos moldes do século 19. Esta mescla de épocas se reflete nos movimentos. “Ele trabalha com as danças populares antigas, como as sarabandas e os minuetos, e mostra a transformação delas pelo tempo”, diz Iracity. O casamento entre a tradição e a modernidade fica claro na coreografia que, em alguns trechos, exibe bailarinos fazendo movimentos que remetem ao balé clássico, mas com finalizações que lembram a dança contemporânea.

Em Antiche Danze, 16 bailarinos se revezam dançando em grupo, quarteto, duo e solo. Arriscados, os passos exigem concentração e equilíbrio do elenco que precisa, por exemplo, dançar com os pés apoiados nos ombros dos parceiros.

Apesar de o italiano ter criado a peça especialmente para a companhia – o que exige mais tempo de trabalho e ensaio –, ele está em contato físico com o Balé da Cidade há apenas pouco mais de um mês. Facilita o fato de que a parceria já ocorreu antes, na primeira temporada de 2014 do grupo, em janeiro. Na ocasião, Bigonzetti estreou a remontagem da peça Cantata. “Não teria feito a criação se não conhecesse o grupo. Seria muito perigoso”, pondera.

O número é o segundo do programa, que é aberto com Cacti, do sueco Alexander Ekman. Iracity conheceu o trabalho do coreógrafo em 2012, quando viu o número Left Right Left Right no Holland Dance Festival, em Haia. “Meu Deus, mas quem é este cara?”, diz Iracity, lembrando o impacto que o espetáculo lhe causou. O fato de Ekman ser jovem (ele tem apenas 32 anos) e criar coreografias para grandes grupos fez com que ela o convidasse para trabalhar com o Balé da Cidade.

Ekman ensinou à companhia paulistana sua obra mais remontada: com estreia em fevereiro de 2010, Cacti foi executada por grupos como Sydney Dance Company, Dresden Ballet e Boston Ballet. De caráter inegavelmente contemporâneo, a coreografia é extremamente teatral – dando falas e expressões faciais ao elenco.

Separados em plataformas de madeira, 16 bailarinos mesclam dança, canto e percussão (quando batucam na madeira), conferindo à obra um volume notável. “Eu amo ritmo”, afirma Ekman. “Gosto de dar este efeito ‘Uau!’ para entreter o público. Os grandes coreógrafos europeus, como Pina Bausch e William Forsythe, sabem entreter porque são bons de timing. Quanto tempo dura uma cena até ficar chata? Os coreógrafos atuais esquecem disso e é aí que perdemos grande parte do público.”

Com texto declamado em inglês e legendado em português, Cacti traz uma divertida ironia para alfinetar os críticos de arte, zombando de seu estereótipo.

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