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Atores vivem figuras diversas na peça 'Dez Encontros'

André Garolli e Tania Khalill interpretam dez personagens em versão

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

12 Janeiro 2015 | 19h34

Isser Korik é ator e diretor, mas, mesmo quando está na direção, permite que seu lado intérprete fale mais alto. “A encenação, o mise-en-scène, não me dá tesão”, diz. “Gosto quando a peça faz o ator crescer.” Por essa razão, resolveu dirigir Dez Encontros, peça que, após estrear em Campinas, chega a São Paulo, no Teatro Folha, onde já está em cartaz. 

O texto original, Reigen, foi escrito em 1897 pelo austríaco Arthur Schnitzler. Depois disso, originou o longa A Ronda, com direção de Max Ophüls e, no fim dos anos 1990, foi sucesso na Broadway com a interpretação de Nicole Kidman no espetáculo The Blue Room, com adaptação de David Hare - versão utilizada por Korik.

No enredo, dez histórias curtas se cruzam e cada um dos dois atores - em Dez Encontros, André Garolli e Tania Khalill - se divide em cinco personagens. O ritmo é frenético: ao fim de uma cena, um dos personagens fica no palco para contracenar com o mesmo ator, que volta na pele de outra figura. Assim, uma garota transa com um taxista, que se relaciona com uma doméstica. Esta flerta com um estudante que, na cena seguinte, mexe com uma mulher casada e, assim, as histórias seguem. “É tipo aquela música do Chico: ‘Carlos amava Dora, que amava Lia’”, conta Garolli, referindo-se a Flor da Idade


“Essa possibilidade de fazer vários personagens é, de cara, encantadora. Um desafio imenso”, afirma Tania, que diz ser impossível a ela não se identificar, de alguma maneira, com cada uma de suas personagens.

Por meio de uma grande discussão de relacionamento fragmentada, a montagem permeia questões existenciais, como quem somos nós, se estamos, de fato, vivendo nossas vidas e o que consideramos importante.

“Hare é um dramaturgo moderno”, afirma Korik. “Enquanto o texto original é prolixo, sua adaptação é bastante sintética: a mensagem é transmitida com poucas palavras.” Segundo o diretor, todos os personagens têm características muito humanas e conflitos que revelam suas personalidades. “Fomos pelo lado de revigorar o emocional para fugir dos arquétipos.” 

Para Tania, a maior dificuldade do espetáculo é a troca constante de personagens. “Temos um fio de segundo para mudar. É muito rápido. Queríamos uma sutileza nessa transição, sem resolver facilmente, evitando cair na caricatura”, afirma. “É uma peça que exige atenção o tempo inteiro. E isso é muito gostoso.”

ENTREVISTA

'No interior, o público é mais aberto' - André Garolli

Por que o texto de ‘Dez Encontros’ o atraiu?

Além de fazer cinco personagens ser um desafio para o autor, a peça está em uma camada da qual eu sinto falta no teatro: não tem uma grande profundidade intelectual, mas também não chega a ser algo rasteiro.

O espetáculo estreou em Campinas. Que diferenças você vê no teatro na capital e no interior?

Campinas sempre foi um centro, mas passa por um renascimento. O público está ávido, há grandes teatros, dá para pensar em temporadas de um mês. As pessoas têm uma predisposição que o paulistano perdeu. Aqui parece que a plateia encara você e diz: “Vamos ver se você é bom mesmo”. No interior, o público é mais aberto, nos acompanha em cena.

DEZ ENCONTROS

Teatro Folha. Shop. Pátio Higienópolis. Av. Higienópolis, 618, 3823-2323. 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 20h. R$ 30/R$ 40. Até 26/4. 

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