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Armazém Cia. de Teatro encara dilemas éticos

Veterano grupo debate aspectos do mal-estar contemporâneo na trama política da peça ‘O Dia em que Sam Morreu’

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

12 de novembro de 2014 | 19h00

“O que é inegociável?”, questiona um personagem de O Dia em que Sam Morreu. Se em tudo é possível fazer concessões, se todas as coisas têm um preço, o que resta como ponto de resistência? Na mais recente montagem da Armazém Cia. de Teatro, grupo com mais de 25 anos de trajetória, a ética surge como problemática a ser esmiuçada. 

Escrita por Paulo de Moraes e Maurício Arruda Mendonça, a obra atual desdobra, a partir dos dilemas vividos por seis personagens, aspectos da corrente e difusa sensação de mal-estar na contemporaneidade. 

Certamente, os autores estavam cientes do risco de se trabalhar com material ainda tão “incandescente”. Não é fácil definir com precisão os contornos da indisposição que tomou as ruas nas manifestações de 2013 – ou que se expressou de forma tão aguda durante as últimas e recentes eleições. 

Na trama, o foco sai da macropolítica para recair sobre vidas privadas. Deslocamento que evoca o pensamento de Michel Foucault e sua crença de que não existe propriamente “o” poder, como objeto, mas práticas e relações sociais nas quais ele se manifesta. A peça, dirigida por Paulo de Moraes, nos leva a observar o interior de um hospital. Lá, um médico vale-se de sua posição hierárquica como forma de coerção. Um sistema repressivo que só entra em operação, vale lembrar, com a participação (ou melhor, abstenção) dos envolvidos. 

O ambiente médico mostra-se ainda bastante apropriado para dar corpo ao entorpecimento próprio deste tempo. É natural que o profissional adquira certa dose de distanciamento em relação àquilo que vê. Não seria possível, por exemplo, que se envolvesse pessoalmente em cada perda ou morte. Mas daí a lidar com a dor alheia com absoluta indiferença existe uma distância. De qual tamanho? Como se proteger do mal sem se tornar anestesiado para o mundo? 

Voltamos a Dostoievski. “Se Deus não existe, tudo é permitido”, preconizava o russo no seu Irmãos Karamazov. Para o ambicioso cirurgião Benjamim, não há limites. É ele mesmo a divindade. Questão essa também – da inter-relação entre o exercício da medicina e a sensação de onipotência – já amplamente examinada pela literatura. O que a obra do Armazém convoca para iluminar esse contexto reconhecível é a presença de um antagonista, o enfermeiro Samuel. 

Em campos ideológicos opostos, cada um deles anuncia um discurso engessado por suas convicções. Como contrapeso ao pragmatismo cínico do médico, existe a voz que clama contra a “ordem estabelecida”. É de Samuel o lugar da utopia. E, tal qual os revolucionários românticos dos séculos 19 e 20, ele toma em armas para mudar o mundo. 

Por definição, o drama moderno carece do conflito para se estruturar. Nesse caso, porém, cabe ponderar se a forma escolhida foi, de fato, capaz de ampliar a discussão pretendida por O Dia em que Sam Morreu

As situações extremas a serem dramatizadas servem indubitavelmente para suscitar perguntas. Mas não parecem ser essas as interrogações mais urgentes de nossa época.

Três mortes organizam a narrativa. É por meio delas que as curvas dramáticas se constroem. Além de Samuel, morto em conflito com o arqui-inimigo, o texto de estrutura cíclica reflui no tempo – e adquire outros matizes – para apresentar os suplícios de Samantha, uma juíza, e de Samir, um palhaço abatido pelo Mal de Alzheimer.

Defensora da justiça, Samantha encontra nas escolhas éticas um elemento definidor de sua personalidade. Mas quem é ela – ou quem ela se torna – se aceitar favores para driblar a fila dos transplantes e conseguir o coração de que precisa? Talvez não valha a pena sobreviver a qualquer custo. Talvez, sim. Somos levados constantemente àquela pergunta inicial: “O que é inegociável?” Não existe resposta pronta em um mundo sem crenças, onde todas as balizas foram esfaceladas. 

De qualquer maneira, incomoda a sensação de que o mote propulsor dessas ponderações existenciais – o tal transplante de coração – esbarra em lugares-comuns já repisados e desgastados pela dita indústria cultural. 

Na pele da jurista dividida entre a ética e a vida, Patricia Selonk volta a dar provas de seu talento, combina técnica e carisma. É atrapalhada, contudo, pelo pretenso lirismo da dramaturgia: “roubaram a nossa língua pelo ensino, as nossas canções pela música vazia, nosso corpo pela pornografia de massa... e a gente permitiu.”

A última morte, a do clown, convoca a música dos bastidores – que pontua toda a encenação – ao primeiro plano. Desprovidas de certezas, Samantha e Sofia, a filha do palhaço, encontram-se no cemitério. A cena emula alguns dos grandes momentos da cia. No terreno estéril, essas duas mulheres podem, finalmente, substituir descrença e utopias por pequenos sonhos – possíveis e necessários.

O DIA EM QUE SAM MORREU

Sesc Consolação. Teatro Anchieta. Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3043. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 40. Até 30/11. 

CRÍTICA: Bom

REFLEXÃO PARTE DE CLICHÊS JÁ DESGASTADOS PELA INDÚSTRIA CULTURAL

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