JOSÉ PATRÍCIO/ESTADÃO
JOSÉ PATRÍCIO/ESTADÃO

Após 13 anos de criações, 'Terça Insana' se despede do público

Atores que participaram do projeto em suas diversas fases relembram personagens no especial 'Adiós, Amigos'

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2014 | 03h00

Há pouco mais de um ano, a diretora da Terça Insana, Grace Gianoukas, contou ao Estado um de seus projetos para 2014: levaria humor para a periferia paulistana por meio do Terça Insana Delivery, ocupando teatros distantes do circuito. “Não deu tempo”, diz. “Esse ano foi uma loucura e descobrimos que um plano desse porte exige uma antecedência enorme.” É justamente essa falta de tempo que motivou a decisão de encerrar as apresentações do humorístico para dar vazão a outros trabalhos. Entre hoje e domingo, no Teatro Bradesco, o espetáculo Terça Insana – Adiós Amigos reúne um elenco de onze artistas que passaram pela Terça Insana em diversas fases.

Em 13 anos de vida, o projeto que começou em 2001 colecionou números superlativos. Mais de 400 atores passaram por lá, sendo cerca de 50 deles integrantes de elencos fixos anuais. Foram criados 342 roteiros, principalmente na fase temática da Terça – com um conjunto de esquetes inspiradas em temas como guerra, gula, humor negro. A produção frenética rendeu mais de 500 personagens. “Para fazer o roteiro do último show, abri um pedido nas redes sociais para que os fãs sugerissem e votassem nos personagens que gostariam de ver”, diz Grace, que teve de conciliar os pedidos do público à agenda dos atores, respeitando a ideia de ter representantes das diversas fases da Terça.

Do primeiro elenco, Roberto Camargo se apresenta como Betina Botox, personagem gay que desabafa sobre o difícil cotidiano dos LGBTTT em uma sociedade preconceituosa e homofóbica – sempre com o bordão ‘Eu não sou obrigada!’. Grace, é claro, participou de todas as fases do projeto, mas leva ao palco duas personagens que marcaram o início da Terça: Aline Dorel, a atriz que vive à base de “quartinhos de Lexotan”, e a traficante viciada Cinderela.

A agenda disputada de Marco Luque impede que ele se apresente hoje, mas o ator integra o elenco durante o fim de semana. O paranaense, que participou da Terça entre 2006 e 2009, dá vida ao motoboy Jackson Five e ao cafona taxista Silas Simplesmente. Da fase mais recente do projeto, Arthur Kohl aparece como o Personal Crimer, que tenta convencer o público da importância dos crimes para a sociedade ao sustentar, por exemplo, a indústria metalúrgica, programas de TV e páginas de jornal, e Renato Caldas faz um profeta que, vivendo na Antiguidade, prevê problemas decorrentes do mau uso da água. “Este texto foi criado em 2012 e nunca foi tão atual como hoje”, diz Grace.

Também integram a trupe do Adiós Amigos os atores Luis Miranda, Guilherme Uzeda, Agnes Zuliani e Mila Ribeiro, além do músico Tiago du Guetto, com número humorístico próprio, e da drag queen e “insanete” Lea Bastos.

Para Grace, a Terça Insana deixa como legado a criação de um teatro de qualidade, a influência na formação de profissionais e o compromisso com um humor respeitoso. “Compreendemos que é possível fazer comédia popular sem baixar o nível. A Terça provou que o palco ainda é o último reduto de discussão livre”, defende. “Influenciamos uma geração que veio depois de nós, que encontrou um caminho para criar na comédia, para fazer suas carreiras. Abrimos uma picada na mata que estava fechada.”

De fato, o projeto mostrou uma nova possibilidade de se fazer humor, em esquetes curtas nas quais um ator aparece só no palco, sem muitos recursos de cenografia, com texto que faz reflexões críticas sobre situações do cotidiano. Depois disso, viu-se uma febre de stand-up comedy, que se desdobrou em outros produtos. Para Grace, no entanto, a Terça não pode ser classificada como sendo deste gênero. “O stand-up veio na cola como linguagem, mas tem essa coisa de preconceitos se repetindo que nós não temos.”

O fim da Terça dá a Grace o tempo desejado para a dedicação a outros projetos. Com a cabeça a mil, ela pensa em seu espetáculo solo para 2015, o Estado de Grace, uma divagação sobre os sete pecados capitais e, é claro, os estados de graça. Com sua produtora, ela pensa em dirigir números musicais e, no ainda longínquo 2016, pode haver espaço para uma versão infantil da Terça Insana. A ordem, por enquanto, é pesquisar. “Quero poder terminar um raciocínio até o fim, sem interrupções.”

ADIÓS, AMIGOS

Teatro Bradesco. Shop. Bourbon. Rua Turiassu, 2.100, 3670-4100. Hoje e sáb., 21h; dom., 20h. R$ 30/R$ 120. Até 21/12. 

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