A força em cena era muito superior ao registro em disco

 Quem sabe ela ainda fosse uma garotinha - mas, claro com um pouco mais de malandragem e muito veneno anti monotonia. As divisórias de tempo articuladas entre a estreia de Cássia Eller (1962-2001) rasgando os anos 1990, a chutar o balde das convenções com o modo rock ligado na vanguarda paulista, a morte trágica e precoce no auge e o revival da personagem provocativa hão de sempre descortinar a fera, o anjo, a mulher - corajosa, mãe gay de Chicão e “filha” de Chico Buarque, como ela disse brincando no programa Acústico MTV, registrado em DVD - e a inimitável cantora.

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S. Paulo

07 Setembro 2014 | 03h00

Personalidade e personagem se confundiam para a legião de admiradores de Cássia, um bicho de entrega feroz no palco, uma ternura angelical no lugar-comum da vida longe dos holofotes. A força de Cássia em cena (assim como de Itamar Assumpção, Cazuza, Tim Maia e Elis Regina, entre outros inclassificáveis forjados em peça única) era muito superior aos registros de seus discos - intensa, gaiata, profunda, sexual, agressiva, em defesa de sua timidez esparramada por amplas possibilidades de falar de amor, conquistas e perdas.

É difícil apontar um único disco como o grande marco de sua carreira, pela irregularidade de repertório e sonoridades - o que não é necessariamente depreciativo. O ciclo se fechou involuntariamente no momento em que fortalecia a identidade com o compositor com quem parece ter afinado melhor, seu mais evidente espelho musical, Nando Reis. Cássia, porém, é daquelas cantoras em que a força interpretativa, o timbre peculiar e o estilo se impõem sobre qualquer gênero - sejam singularidades de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Mario Manga, sambas de Riachão, Tião Carvalho, Ataulfo Alves, rocks, baladas e reggaes de Cazuza, Renato Russo, Herbert Vianna, Rita Lee, Raul Seixas, Arnaldo Antunes, reinvenções de clássicos de Beatles, Jimi Hendrix, Miles Davis, Otis Redding.

Com um pé no blues à moda de Janis Joplin e Luiz Melodia, entre violões e sanfona, camas macias de intimismo, pepitas de medalhões (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Moraes Moreira, Marisa Monte) e o risco de tocar em fios desencapados, não chegou a morar o com diabo, mas tangeu o ponto que se pode dizer imortal. Se balançou o ponteiro como uma bússola nervosa - cedendo em parte a certa tentativa de moldarem seu comportamento para se adequar ao mercado da chamada MPB -, acertou em muitos pontos, entre contemporâneos do Planalto Central, do Sudeste e do Nordeste. 

Teve a sorte de amores tranquilos tornados públicos (principalmente a incrível relação com Maria Eugênia), num universo povoado de cantoras que não publicam o nome dos amores entre iguais que sentem e cultivam na sombra, Cássia foi o raio luminoso que escancarou a porta de muitos armários para liberar mais prazer entre seguidores de todos os sexos.

Mudaram as estações, mas - tomando emprestada a ideia de Péricles Cavalcanti naquela célebre canção em homenagem à musa -, o que muita gente queria mesmo ainda hoje é ser libertária e extraordinária como a Cássia Eller.

Mais conteúdo sobre:
Cássia Eller

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.