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Uma revisão de Chekhov em tom passional

Daniel Veronese, polêmico diretor argentino, recupera em novo espetáculo a peça Tio Vânia, do dramaturgo russo, para discutir o que nos faz voltar sempre aos clássicos

Maria Eugênia de Menezes - O Estado de S.Paulo,

12 de maio de 2011 | 06h00

"O que é teatro contemporâneo? E quem disse que o teatro contemporâneo não pode ser realista?", provoca Daniel Veronese. Um dos nomes mais festejados da efervescente cena de Buenos Aires, o diretor argentino voltou recentemente à tradição do teatro realista dos séculos 19 e 20. "Pretendo descobrir o que os torna clássicos, porque voltamos sempre a eles."

Mas não fez desse retorno ao passado a busca por um terreno seguro. Ao contrário, encontrou em obras consagradas uma possibilidade para o risco, o lugar para exibir uma teatralidade particular e autoral. É isso que se pode comprovar em Espia a Uma Mulher Que se Mata, versão de Veronese para Tio Vânia, do russo Anton Chekhov (1860-1904).

Na peça, que cumpre curta temporada no Sesc Belenzinho a partir de hoje, o texto de 1897 merece novos contornos. "Chekhov continua tão atual que parece que seus personagens nos falam de hoje. Trata de questões primárias de necessidade e orfandade, de busca da verdade, de algo que nos explique o sentido da vida e de seus sofrimentos", disse o diretor em entrevista que concedeu ao Estado em setembro do ano passado.

Veronese, que começou sua trajetória profissional como mímico e títere de bonecos, é um dos fundadores do grupo El Periférico de Objetos. Em carreira solo, destacou-se também como dramaturgo e construiu uma sólida reputação como diretor.

Além de Tio Vânia, na última década o encenador portenho releu ainda As Três Irmãs, obra chekhoviana que recebeu o intrigante título de Um Homem Que se Afoga. Outro grande nome do teatro realista, Henrik Ibsen (1828-1906), também esteve na mira do diretor: Hedda Gabler passou a ser chamada de Todos los Goviernos Han Evitado el Teatro Íntimo. E Casa de Bonecas aparece com o nome de El Desarrollo de la Civilización Venidera.

Em todas elas, Veronese ressalta um traço comum. Distancia-se cada vez mais de elementos cênicos. Recursos como iluminação, música e figurino passam a ser supérfluos. E concentra-se no trabalho do ator, dando-lhe primazia absoluta. "O ator é a base fundamental de cada uma das minhas obras. Pretendo plantar a vida em cena, em cada segundo da obra, para que tudo aconteça naquele espaço, entre aqueles atores. Que os atores digam pouco e façam muito", explica ele, que participa de um debate sobre a criação do espetáculo no domingo, às 15 horas. São Paulo é a quarta cidade brasileira a receber a montagem. Antes, as plateias de Porto Alegre, Rio de Janeiro e Santos já puderam assistir à encenação.

Teatro dentro do teatro. Em Espia a Uma Mulher Que se Mata está mantido o conflito central da peça de Chekhov. Tio Vânia - o guardião de um mundo de sonho - se contrapõe a seu cunhado, o arrogante e ambíguo Serebriakov. As chagas familiares continuam a ser expostas com ferocidade. A felicidade persiste como impossibilidade a ser inutilmente perseguida. O antagonista de Vânia, porém, não é mais um acadêmico, como na obra original. Aparece aqui convertido em teórico teatral, trilha que abre espaço para que o metateatro se instaure como tema. E também para que uma série de indagações sobre novas e velhas formas das artes cênicas entrem em discussão. Com direito, inclusive, a excertos extraídos de outra obra do dramaturgo russo, A Gaivota.

Na montagem, Veronese demonstra especial pendor pela síntese. A ampla casa de fazenda - em que vivem Vânia, a mãe e a sobrinha Sônia - é substituída por uma exígua sala de estar. Alguns personagens secundários são limados. Toda a concisão que já se via em Chekhov é acentuada. Com ritmo caudaloso, a encenação desfaz a impressão de morosidade, geralmente atribuída às tramas do autor.

Não há tempos de transição. Ou silêncios. Não existe contenção: toda dor é uma ferida aberta. Tudo está reduzido à essência, com os embates entre os personagens resvalando na passionalidade portenha.

 

SERVIÇO:

Espia a Uma Mulher Que Se Mata

Sesc Belenzinho. Rua Padre Adelino, 1.000, tel. 2076-9700. 5ª e 6ª, 20 h; sáb., 17 h e 20 h; dom., 17 h. R$ 6/R$ 24Até 22/5.

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