Marcelo Liotti/Divulgação
Marcelo Liotti/Divulgação

Trinta anos depois, 'Bailei na Curva' está de volta

A peça teve algumas intervenções para que a platéia permaneça conectada

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2014 | 02h11

"É um desses casos em que a criatura ficou muito maior que o criador", diz o diretor Julio Conte quando rememora o percurso de Bailei na Curva, espetáculo que estreou há 30 anos e que ele volta a apresentar a partir de hoje no Teatro Bradesco.

A obra possui, de fato, uma trajetória sui generis na história do teatro brasileiro. Criada em Porto Alegre - e com passagens apenas esparsas pelo eixo Rio-São Paulo - Bailei na Curva tornou-se um dos títulos mais populares da dramaturgia nacional.

Lançada no ocaso da ditadura militar, a peça conta a experiência de um grupo de crianças que moravam na mesma rua e cobre o período que vai desde o início do golpe - em 1.º de abril de 1964 - até a redemocratização. Na versão original, de 1983, a trama terminava com as manifestações pelas Diretas já. Em 1985, porém, o final foi modificado: encerra-se a narrativa com a morte de Tancredo Neves, o presidente eleito que nunca chegou a assumir. "É uma versão um pouco menos otimista. Entra uma certa dose de ceticismo, mas manteve-se, ainda assim, como uma obra muito esperançosa", comenta Conte. "Ela pode ser vista como a última obra da ditadura ou, então, como a primeira do período democrático."

Bailei na Curva foi criada em coletivo. Os atores da primeira montagem conceberam o texto a partir de improvisações e usando muito da própria experiência. "É também uma peça que propõe soluções coletivas. Nesse sentido, podemos dizer que se trata de uma obra muito mais moderna do que pós-moderna. Ainda que sua narrativa tenha aspecto fragmentário, com cortes e saltos no tempo", observa o encenador, que já conduziu 13 elencos diferentes em montagens do espetáculo.

Os tempos mudaram nessas três décadas. Para que a plateia permaneça conectada com a temática que é levada ao palco, Julio Conte conta ter precisado fazer algumas intervenções, pontuando com vídeos e imagens situações que antes eram de conhecimento geral, mas hoje poderiam apresentar dificuldade no entendimento. "Cada menção a um fato histórico, que antes soava natural, agora necessita de contextualização", diz ele.

Outra modificação está na cenografia. Na primeira versão, a economia de recursos era radical. No palco nu, havia apenas sete cadeiras pretas. A iluminação reduzia-se a luz branca e imóvel. Hoje, a opção é por tons mais coloridos na luz, cenografia e nos figurinos, que passam a fazer menção à moda dos anos 1960 e 1970. "É um dinamismo que corresponde às necessidades estéticas do nosso tempo", crê o diretor.

Para preparar os intérpretes também foram necessárias algumas alterações no processo de trabalho. Distantes daquele momento histórico, os atores que hoje integram a montagem receberam diversas informações sobre o contexto da época. Além dos conflitos políticos, Bailei na Curva traz uma espécie de "inventário" dos costumes e hábitos daquele período do País, incluídas aí mudanças na sexualidade e na dinâmica das famílias.

Uma Porto Alegre que não existe mais também entra na história. "Aquela cidade de sobrados e ruas de paralelepípedos foi gradualmente destruída. Hoje, as cidades brasileiras são todas muito parecidas, com seus prédios e avenidas."

Dado intocado para o espectador antigo ou o novato será a trilha sonora. A canção tema Horizontes ganhou vida própria nos anos 1980 e tornou-se uma espécie de hino afetivo gaúcho.

A nova montagem estreou em Porto Alegre em outubro de 2013. Em turnê já passou por Novo Hamburgo ( 9 e 10 de novembro ) e pelo Rio de Janeiro (22 e 23 de janeiro).

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