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Santa ou farsa? Evita

Musical desvenda o mito e a real trajetória de um dos maiores ícones da história argentina

Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo,

24 de março de 2011 | 20h38

Para os ricos e poderosos, aquela morena de baixa estatura não passava de uma atriz de segunda linha, dentuça e alpinista social; para os pobres e descamisados, porém, a mulher, agora loira, era uma verdadeira diva por saber tocar os sentimentos mais doloridos das pessoas. Santa ou oportunista, a trajetória de Maria Eva Duarte Perón (1919-1952) foi curta, mas fulminante: de atriz de radionovela, ela se tornou líder política e primeira-dama da Argentina, tecendo para si mesmo uma crisálida de beleza, que incubou a rainha do povo.

 

Veja também: 

video Assista ao making of do espetáculo

 

As desventuras de uma das mulheres mais famosas do século 20 inspiraram o musical Evita, que estreia amanhã, no Teatro Alfa. "Trata-se de uma ópera-rock sobre o universo do poder", comenta o diretor e produtor Jorge Takla, que investiu R$ 4 milhões na montagem que reúne um elenco de 45 atores e cantores, além de uma orquestra com 20 músicos. "É um épico com toques de conto de fadas".

 

De fato, quando conheceu o político Juan Domingo Perón em 1944, Eva não passava de uma estrela sem talento, que mal pronunciava as palavras – chegou ao sexto ano da escola a duras penas. Mas, depois de se casar com Perón, ela descobriu que a personagem de sua vida era ela própria e, ignorando as críticas da classe dominante (que a tachava de meretriz), representou seu papel com uma convicção magistral, transformando-se na "chefe espiritual da nação".

 

É justamente sobre esse dualismo em que se apoia o musical. Evita foi um dos pontos culminantes na carreira do letrista Tim Rice e do músico Andrew Lloyd Webber – juntos, eles vinham de um clássico (Jesus Cristo Superstar, de 1971) e se impressionaram com a história de Eva Perón. Em 1974, Rice visitou os locais onde ela viveu, na Argentina e, depois de minucioso trabalho, preparou, ao lado de Webber, músicas e letras para um espetáculo totalmente cantado, uma ópera-rock, como se chamava na época.

 

Por conta da complexidade do musical, a dupla decidiu lançar primeiro um disco com as canções, até como um teste de público. O produto chegou às lojas em novembro de 1976 e logo se tornou um sucesso mundial, capitaneado pela faixa que se tornaria símbolo do musical, Don’t Cry for Me, Argentina (Não chores por mim, Argentina), na interpretação de Julie Covington.

 

Finalmente, em julho de 1978, a primeira montagem de Evita estreou em Londres, causando comoção. "O motivo é simples: trata-se de um musical dificílimo de ser cantado", observa Jorge Takla que, após uma longa audição, escolheu seu trio de protagonistas: Paula Capovilla é Evita, enquanto Daniel Boaventura interpreta Perón e Fred Silveira vive Che Guevara. Qual a relação do famoso guerrilheiro com Evita, exceto o fato de ambos serem argentinos? É uma jogada de mestre dos criadores, que colocam Che como o narrador da história, acompanhando a distância todo o desenrolar da trajetória de Evita até se tornar a senhora Perón.

 

"Os criadores viam o Che como símbolo da contestação, portanto, o personagem ideal para representar a consciência de Evita e apontar seus pontos negativos", conta Silveira, que foi à Argentina pesquisar detalhes de Guevara. "É por isso que suas canções são, em grande maioria, de rock, que melhor transmite a noção de rebeldia."

 

De fato, apesar de ressaltar o carisma da mulher que morreu jovem, aos 33 anos, de câncer, o espetáculo é crítico ao explicitar seu despreparo e sua ambição de poder, camuflado pelo interesse pelos descamisados, sua principal bandeira política e social. "Outro detalhe imprescindível é a forma como é mostrada a posição de Perón", comenta seu intérprete, Daniel Boaventura. "Ele não tem uma posição passiva como pode parecer. Na verdade, Perón sabia utilizar isso como estratégia política."

 

Articulista de primeira linha era, na verdade, Evita. "Sua vida foi construída com muita paixão", acredita Paula Capovilla, que se desdobra em cena para reproduzir a tumultuada trajetória. E sua partitura é extenuante. "Sou obrigada a articular palavras em um tom de voz que raramente uso, mesmo no canto", explica ela, obrigada a atingir um grave e um agudo que poucas conseguem.

 

E, ao contrário de outras montagens de Takla, Evita praticamente não traz cenários: apenas uma enorme parede branca, com portas, onde são projetadas cenas da verdadeira Evita.

 

DEPOIMENTO

Lygia Fagundes Telles

ESCRITORA

"Ela provocou alvoroço"

 

"Meu primeiro marido, Goffredo da Silva Telles, foi deputado federal quando a capital do País ainda era no Rio de Janeiro. Em 1951, eu o acompanhei em uma recepção à Evita (foto), na Câmara dos Deputados. Ela chegou com um chapéu enorme, muito elegante, mas já apresentando sinais da doença, pois estava muito pálida e parecia muito magra. Era uma pessoa delicada, de estatura mediana, mas de uma beleza radiante. Era capa das revistas estrangeiras. Por isso, sua presença provocou um enorme alvoroço. Lembro, por exemplo, de um deputado gaúcho que, histérico, tirou sua capa e colocou no chão para ela passar. Foi engraçado."

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