Dalton Valerio/ Divulgação
Dalton Valerio/ Divulgação

Rosa, a mulher que viu o século 20

Em peça do americano Martin Sherman, judia conta sua saga: do gueto de Varsóvia à aposentadoria em Miami

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2013 | 02h13

Quando o texto do norte-americano Martin Sherman lhe caiu nas mãos, Débora Olivieri achou que jamais seria capaz de encená-lo. "Não conseguia nem chegar ao fim. Caía sempre no choro e não parava mais", conta a atriz. "Aquela era a história da minha avó, com quem eu vivi por 20 anos, da minha bisavó. Era a história que eu ouvi a minha vida inteira. Como poderia me distanciar o suficiente para fazer um espetáculo?"

Débora conseguiu. Rosa, espetáculo que ela estreia hoje no Teatro Faap, conta a trajetória de uma mulher que acompanhou boa parte das mazelas do século 20. Ela nasceu em algum pequeno povoado da Ucrânia, mas hoje mora em Miami, nos Estados Unidos. Perdeu tudo. Mas conseguiu refazer-se. Assistiu ao assassinato da filha de três anos. Nunca encontrou o corpo do marido que amava. "Ela é judia como eu. Mas não é com isso que as pessoas se emocionam. Essa poderia ser a vida de qualquer excluída, de uma afegã, de uma etíope, de uma nordestina", considera a intérprete, que antes de chegar a São Paulo, cumpriu uma elogiada temporada no Rio, sob a condução da diretora Ana Paz.

Na obra, Rosa já tem 80 anos. Débora só completou 55. Mas ganha quase três décadas assim que entra em cena. "Não uso maquiagem. No começo, colocava um pouco de talco no cabelo. Mas, ultimamente, ele já está ficando branco naturalmente", comenta ela.

Ao fim da vida, a personagem -título se vê mais uma vez de luto. É nesse momento que começa a rememorar o passado. Recupera a imagem da perda do pai. Apenas o primeiro dos muitos mortos que viriam na sequência e a acompanham ainda hoje. "Acho que toda família judia tem uma Rosa", pontua a atriz.

Impossível não perceber as origens da protagonista. O chamado humor judaico permeia sua maneira de olhar o mundo. Uma capacidade de rir das próprias mazelas. E que salva a personagem de uma excessiva autocomiseração. Para Débora, "trata-se de um humor de muitas camadas, uma ironia que está sempre presente."

Também a política permeia esse relato. E o olhar de Rosa não é condescendente. Ela presenciou a criação do Estado de Israel. Viu seu filho emigrar para um kibutz. O neto entrar na guerra contra os palestinos e atirar em uma garotinha. Exatamente como haviam feito com sua filha, anos atrás.

ROSA

Teatro Faap. Rua Alagoas, 903, Higienópolis, 3662-7233 e 3662-7234

2ª, às 21h; 3ª, às 17h. R$ 60. Até 10/12.

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