'Rasga Coração' volta renovada à cena teatral

Peça de Vianinha chega à cidade em montagem que inova com cenário único

Beth Néspoli, do Estadão,

19 Outubro 2007 | 19h55

Basta a leitura de Rasga Coração, considerada por muitos críticos uma obra-prima, para perceber que essa peça mantém impressionante atualidade. Chega a ser surpreendente que tenham sido escritos entre 1972 e 1974 alguns diálogos sobre os efeitos do progresso na destruição do planeta e sobre o descaso com a preservação da natureza. Última peça de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), Rasga Coração ganhou nova montagem carioca, que inicia neste sábado, 20, temporada no Sesc Santana, a primeira a alcançar repercussão depois da dirigida por José Renato, em 1979, protagonizada por Raul Cortez.   Leia trecho da peça 'Rasga Coração'   Desta vez Zecarlos Machado - ator do Grupo Tapa que já tinha brilhado no solo Corpo a Corpo, de Vianinha - assume o papel do militante político Manguary Pistolão, vivido por Cortez. Dudu Sandroni é o diretor do espetáculo que ganhou em agilidade ao resolver, com cenário único, a sala de estar do protagonista, os diversos espaços geográficos e tempos históricos pelos quais os personagens transitam.   A um só tempo   Nesse texto de Vianinha, numa mesma cena, por exemplo, Manguary Pistolão a um só tempo relembra suas discussões no passado com o pai (Alexandre Dacosta)e discute, no presente, com seu próprio filho (Pedro Rocha). De um lado, resiste ao pai que quer vê-lo no interior do País, enquanto ele, jovem, acha que sua luta está na cidade; no presente, briga para convencer o filho, um crítico da vida urbana, a ter consultório na cidade. Ou ainda, no passado, Nena, a mulher de Manguary (vivida pela atriz Kelzy Ecard em elogiada atuação)é humilhada ao ser pega pelo sogro em flagra de namoro, mas no presente tem atitude muito parecida ao lidar com o filho e sua namorada.   "O fascinante em Vianinha é que ele não cria o herói como um ser perfeito. Manguary é frágil, cheio de contradições, equívocos e conflitos. Mas é um lutador, um lutador político, um homem capaz de indignar-se com a injustiça e agir contra ela, essa é sua força", diz Zecarlos Machado. "Como também foi Vianinha. Sua trajetória foi de luta pelas coisas que acreditou."   Dudu Sandroni, de quem partiu a iniciativa da montagem, chama atenção para a oportunidade de rever essa peça nesse momento. "Ele faz uma crítica ao homem de esquerda brasileiro e sua adesão ao sistema em diferentes tempos da História. É muito interessante revê-la nesse momento em que a geração de Vianinha chegou a o poder. E não estou falando só de Lula, mas também de FHC, toda essa geração que chegou ao poder pós-1964."   História do Brasil   Fartamente elogiada por sua construção primorosa, Rasga Coração leva o espectador a percorrer a história do Brasil desde os anos 30 até a década de 70, sempre do ponto de vista dos lutas entre forças políticas. Porém o faz pelo canal da emoção e a partir dos relacionamentos, entre pai e filho, marido e mulher, amigos de luta. Zecarlos chama atenção para a diferença de tônus entre os dois atos da peça (leia ao lado).    "O primeiro é matemático, muito bem construído; o segundo é um turbilhão de emoções. Não dá para dizer qual é melhor." Sem contar o prazer proporcionado pela pesquisa musical e de costumes, trazida sobretudo por um delicioso personagem, o boêmio Lorde Bundinha, vivido por Xando Graça.   Rasga Coração. 135 min. 12 anos. Sesc Santana (349 lug.). Av. Luiz Dumont Villares, 579, 6971-8700. R$ 20. Sáb., 21 h; dom., 19 h. Até 25/11

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