Marcelo Hein/Divulgação
Marcelo Hein/Divulgação

Peça reflete sobre a ausência de comunicação

‘Opus 12 para Vozes Humanas’ reúne dois textos do dramaturgo Sérgio Roveri sobre o tema contemporâneo

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

11 de fevereiro de 2014 | 10h44

A incomunicabilidade tornou-se tema recorrente no teatro contemporâneo. Opus para 12 Vozes Humanas, nova peça do dramaturgo Sérgio Roveri, segue a corrente e mergulha nessa problemática. Também investiga a incapacidade de se relacionar com um interlocutor nos dias que correm. Mas o faz de maneira peculiar. “Não adiantaria comunicar a incomunicabilidade. Era preciso criar uma obra que fosse, em essência, incomunicável”, comenta o diretor, José Roberto Jardim.

São duas criações distintas que o espectador deve acompanhar durante o espetáculo. Apresentada inicialmente, o texto Um Dia traz a dupla Pedro Henrique Moutinho e Janaína Afhonso para dar corpo a 17 personagens. Fragmentado, o relato dá conta da rotina de um homem e uma mulher e dos muitos acontecimentos fortuitos que atravessam o seu dia: o caos, o trânsito, os desencontros. Além de alguma delicadeza imprevista.

Nessa primeira criação, com cerca de 15 minutos de duração, o aspecto é minimalista. A encenação traz um único foco de luz fixo, com os dois intérpretes permanentemente sentados. Todas as oscilações de enredo são transmitidas apenas pela sonoridades. Vozes que adquirem múltiplas texturas e funções. Além de encarnar diversos papéis, os atores se transformam em comentadores das próprias ações.

Um pouco mais longa, a segunda parte da peça vale-se do clima instaurado pela primeira. “Sem uma, não haveria a outra”, observa o autor. “Usei o mesmo mal-estar e estranhamento para escrever o segundo texto.” Ainda assim, a situação que esse outro título apresenta carrega suas diferenças. Em Uma Noite, dois casais (Felipe Folgosi, Anna Cecília Junqueira, Alex Gruli e Munir Kanaan) tentam, em vão, dialogar. Convida-se o público a partilhar de uma situação de alienação absoluta, lugar em que palavras valem menos do que o silêncio. Durante uma festa, os personagens utilizam todas as situações como pretextos para falarem apenas de si. Um médico gaba-se de seu interesse por vinhos. Sua mulher oferece, incansavelmente, mais uma porção de salada de batatas aos comensais. Na ala dos convidados, um outro casal segue dinâmica semelhante. Os transplantes de órgãos entram em pauta. A necessidade de novos amigos também. Todos eles falam sem cessar, porém nada dizem. “Fica evidente uma percepção do fracasso da palavra”, comenta Roveri.

O que também fica evidenciado pela situação proposta é a ausência de qualquer esperança. Em Uma Noite, não há redenção possível. Nas personagens femininas, ainda se pode perceber tentativas – mesmo que falhas – de diálogo. Já as figuras masculinas surgem tão ensimesmadas, que incapazes de perceber qualquer anseio ou expectativa do outro. “Eles falam muito para encobrir algo que não pode ser dito”, crê o dramaturgo.

Ao expor esse quadro distópico, o encenador opta por uma estética que destoa daquela proposta para o primeiro texto. Substitui-se o imobilismo por movimentações extremamente marcadas. Troca-se o foco único de luz amarela, por uma iluminação que alterna as cores primárias. “Se o primeiro texto tem o aspecto de um quadro impressionista, no qual a distância vai revelando o todo, esse segundo remete às telas de Mondrian”, assinala o diretor, em referência às criações do pintor holandês. Expoente do neoplasticismo, Mondrian valorizava as formas geométricas e tinha na sua paleta um número limitado de cores: amarelo, azul e vermelho.

Parceria. Opus 12 para Vozes Humanas assinala a quarta parceria entre o dramaturgo Sérgio Roveri e o diretor José Roberto Jardim. Antes do atual trabalho, eles já estiveram juntos no texto curto Qualquer Dia, Comigo, Com Você, Com Qualquer Um, na montagem Tempos de Marilyn, ainda em fase de produção, e no recente Aberdeen, um Possível Kurt Cobain. 

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